O FUTURO DOS SINDICATOS

 

Tema polémico este, que nos tem assaltado nos últimos tempos por todos os meios possíveis: televisão, rádio, jornais, redes sociais com maior ou menor reconhecimento. As grandes manifestações populares que se têm registado por toda a Europa são de natureza praticamente inorgânica mas, sem dúvida, com grandes adesões. Estes novos movimentos rejeitam os sindicatos e movem-se,  à margem das velhas estruturas institucionalizadas, sem hierarquias reconhecidas nem legitimidades consagradas. Em França, por exemplo, apenas 35% dos franceses confiam nos sindicatos. Não se conhece,  em Portugal, essa percentagem de simpatia. Mas consultando os dados disponíveis verificamos que eles não coincidem e muitas vezes se contradizem. Estes movimentos populares, com expressão importante em alguns países, transmitem nas suas redes sociais a ideia de que os sindicatos tradicionais são travões às reformas devido às suas antigas convivências com os poderes políticos instalados.

Tem-se verificado ainda o fenómeno de, no seio dos sindicatos institucionais já existentes, se constituirem outros sindicatos dissidentes ou, digamos, principalmente corporativos. Representam apenas uma classe específica dos profissionais do sindicato base mas, pela liberdade de associação, não se lhes pode negar existência legítima. As perturbações na sociedade são, no entanto, muito agudas, criando frentes de confronto com as quais é difícil negociar em face das variadas legitimidades existentes no terreno.

Sabe-se que o sindicalismo convencional apoia, até aos limites das suas capacidades, os direitos e os custos atribuíveis aos grevistas. Os sindicatos dissidentes ou corporativos recorrem, segundo eles próprios informam, a regimes de “crowdfunding”, isto é, a apoios financeiros indiscriminados,  oriundos de grupos bem intencionados ou de outros cujos elos de ligação a  interesses estabelecidos são muito obscuros e indecifráveis. É esta a situação atual em muitos países europeus, incluindo o nosso. Os governos têm, muitas vezes, dificuldade em escolher os seus interlocutores quando, de dentro de um qualquer ramo laboral, lhes surgem diversas vontades para esses diálogos.  Que fazer então? É o que os especialistas destas áreas andam a estudar.

Pegando no exemplo da França (onde os dados disponíveis são mais fiáveis) e segundo um estudo de Cécile Crouzel, verifica-se que a taxa de sindicalização nacional é da ordem dos 11%, dos quais 19,8% no setor público e 8,7% no privado. A média de sindicalização na Europa é de 23% com o exemplo extraordinário da Suécia com os seus 68%. E porquê esta taxa tão elevada? Porque só os aderentes com contratos completamente regulados beneficiam das vantagens daí decorrentes: um subsídio complementar de saúde e uma boa indemnização pela greve realizada. Não se põe, neste e noutros casos,  a obrigatoriedade de sindicalização, o que seria anti-constitucional.

Então como fazer no futuro?  A informática e a inteligência artificial vieram perturbar a organização do trabalho e as suas competências.  Face a poderes executivos que são, normalmente,  displicentes em relação às classes  intermédias é indispensável que o patronato e os sindicatos revejam as suas posições comuns, se atualizem e formem os seus dirigentes de modo a poderem manter as suas capacidades sociais,  com debates alargados, coerentes e realistas perante as necessidades e disponibilidades dos seus países. Porque, infelizmente, a Europa ainda demorará muito a alcançar a uniformidade global com que, de início, se sonhou,  neste e em muitos outros domínios. Julga-se que, em Portugal, há iniciativas importantes neste campo. Esperemos que os interesses concretos da concertação possam alcançar os objetivos de atualização necessários a um futuro já tão próximo.

 

 

 

 

 

Um pensamento sobre “O FUTURO DOS SINDICATOS

  1. Um assunto, tão interessante como de polémico. Um assunto, que envolve interesses nem sempre bem compreendidos, tanto pelos que servem como pelos que se servem. Os que mandam e os que obedecem. A diversidade de situações de uma economia ondulante, talvez mais de perda do que de ganhos, por arrastamento de más gestões ou interesses ocultos, como o caso português, ou ainda por uma concorrência desleal, legalizada por convenções internacionais, de estratégias geopolíticas, tornando cada vez mais difícil, o equilíbrio das empresas. Os vícios de partidarização das negociações. E aqui, a educação democrática, não pode ficar-se apenas no figurino, apenas expectante, de se sentarem pontualmente à mesma mesa…! Na educação democrática, deve coexistir o respeito, as viabilidades, as progressões, o conhecimento e a consciencialização das situações, além do futuro das empresas. Assuntos nem sempre adoptados pelas partes, que acabam por afastar e prejudicar os principais interessados. Daí, talvez o desinteresse e os baixos números estatísticos de sindicalização…!

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