O PARQUE MAYER

 

Um dos locais mais centrais e icónicos da nossa Lisboa tem sido motivo, nos últimos anos, de enormes controvérsias e alvo de tentativas de reformulação das mais variadas origens e, nem sempre, ocultando os vultuosos interesses que sempre surgem nestas ocasiões. O Parque Mayer pouco dirá às novas gerações  que se espalham mais pelo Bairro Alto, por Alfama ou Madragoa. Mas para os da minha geração o significado e as recordações são outros. Nos tempos da minha juventude e da de muitos que ainda nos acompanham, o Parque era o local mais animado de Lisboa. Além dos teatros que ali funcionavam em permanência (o Variedades, o Maria Vitória, o ABC e o cinema Capitólio) havia um grande número de restaurantes castiços, carrocéis, esplanadas, casas de fado, barracas de tiro (Vá lá um tirinho, cavalheiro simpático!…),  espaços para boxe e luta livre (o famoso “Catch As Catch Can” )  com os insubstituíveis Tarzan Taborda e o Pantera Negra em duelos de luta livre que ficaram memoráveis. O Tarzan Taborda ( de seu nome Albano Esteves, natural de Penamacor) foi campeão da Europa por 4 vezes e campeão mundial outras 5. Foi duplo em Hollywood e contracenou com Brigitte Bardot, Alain Delon, John Wayne e Robert Mitchum. Por ali vagueavam quase todos os espécimes da época: rapaziada nova apenas para se divertir, gente de teatro que frequentava os diversos restaurantes ali existentes, muita gente da política oposicionista que ali organizava as suas ações contra o regime e, claro, muita gente da PIDE (Polícia Internacional e Defesa do Estado) que ouvia as conversas e prendia muitos deles. Como área teatral não podiam deixar de por ali passar as jovens coristas que enxameavam os teatros já enumerados. Como jocosamente se dizia na altura : “eram as meninas boas de famílias pobres”, alvos de perseguições apaixonadas, muitas delas ganhando fama e, em diversos casos, acabando em casamentos. Era um espaço lúdico por excelência mas de conforto para muitos reviralhistas que encontravam, nas brejeirices das revistas teatrais, oportunidade quase única para expressarem as suas belicosidades anti-governamentais. Claro que quem tinha a sorte de ir às estreias das revistas (foi, por coincidência, algumas vezes o meu caso) via quadros e ouvia piadas que, no dia seguinte a famosa censura já tinha feito desaparecer.

Não se pode dizer que o Parque não era, realmente, um espaço único da noite lisboeta. Foi criado e construido nos jardins do Palácio Mayer (Prémio Valmor de 1902) e inaugurado, formalmente, em 1922. Cumpriu, estrepitosamente, a sua missão na época mais negra do chamado Estado Novo, permitindo múltiplas diversões a grande parte da população lisboeta e portuguesa, em geral. Após a descompressão de 1974 deixou de ser preciso ir ao Parque para dizer  ou ouvir conspirações ocultas. E, a partir daí, a ganância imobiliária tentou deitar mão ao espaço mais notável do centro de Lisboa. A  propriedade do espaço tem saltado da Câmara Municipal para entidades privadas e destas, de novo, para a Câmara. Numa dessas fases foi mesmo encomendado um projeto ao famoso arquiteto Frank Gehry para reabilitação do espaço. O projeto custou 2,5 milhões de Euros  e nunca foi utilizado. Hoje, de novo em posse da Câmara, desenvolve-se um plano de reabilitação que as contingências financeiras e, receio, que também intermináveis processos judiciais, não deixem prosseguir com a velocidade que se desejaria.

Por tudo isto fui ao cinema ver o filme de António Pedro de Vasconcelos, “Parque Mayer”, onde tudo aquilo que contei atrás está reproduzido com enorme fidelidade. Não se trata de uma comédia brejeira, oca ou vazia de sentido. Bem pelo contrário é um filme quase dramático, que assenta numa realidade histórica muito recente e da qual muitos de nós ainda se lembra. As perseguições e prisões de mendigos, políticos da oposição, prostitutas e homossexuais estão ali retratadas, com rigor e verdade. Ia tudo para o Albergue da Mitra sem direito a nada: apoio, defesa ou contraditório. A única coisa certa eram os maus tratos a que eram sujeitos, as agressões físicas de que eram alvo e o tempo indiscriminado em que permaneciam presos. Tudo isto nos conta APV no seu filme “Parque Mayer”. E por isso voltei ao local para o comparar com os ambientes do filme que bem condiziam com os das minhas recordações. Tudo diferente. Só o Teatro Maria Vitória mantém um espetáculo permanente de revista à portuguesa, teimando em não deixar morrer as tradições daquele espaço. O Capitólio, normalmente fechado, é apenas utilizado para concertos ou eventos semelhantes.

Percebe-se que existe uma tímida e lenta recuperação que, esperemos, a Câmara consiga levar a bom porto. Mas, por tudo o que fica dito, aconselho vivamente as novas gerações a ver este filme. Talvez não lhes diga nada, de momento, mas talvez alguns venham a compreender a lição de História recente que não lhes é ensinada na escolas que frequentam. Para poderem compreender o aflorar de furtivas lágrimas aos olhos dos que, durante a sessão, se lembram de como tudo era. E que desejamos, vivamente, que não volte a acontecer.

 

 

 

2 pensamentos sobre “O PARQUE MAYER

  1. Uma crónica, particularmente interessante, além de muito bem escrita…! Os bons e simpáticos momentos da nossa vida lisboeta. Os maus momentos de uma outra época, felizmente já distante…! Momentos de boémia, de uma juventude adulta, a percorrer aquele canto de Lisboa, castiça e nocturna, que recordo com um ou outro suspiro…! Recordo o Maria Vitória, e o êxito da revista, Óh Zé Aperta o Laço, tão a propósito de um caso pouco recomendável, passado em Cascais…! Havia, quem assemelhasse o Parque Mayer, à Place Pigallle, o que mais tarde nos faria sorrir de troça, embora saibamos, que esses tipo de comparações se devia, ingenuamente, ao nosso bairrismo…! Que tempos…!

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  2. Excelente escrito sobre o Pq Mayer que também conheci bem! Lembro-me bem do “oh simpático vai um tirinho”, dos bons restaurantes de então como “O Cantinho dos Artistas”, e o “Júlio das Miombas” onde a velha Alzira (uma beleza do seu tempo e com muitas histórias com figuras do regime, que quando por isso insistentemente provocada, respondia em linguagem do melhor vernáculo que conheci…
    Também vi o recente filme do António Pedro Vasconcelos de que gostei; mas é preciso ter vivido aqueles tempos para o apreciar devidamente.

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