A Corrida de Touros

Desde há anos que em Portugal se vem debatendo a continuidade (ou não) das touradas ou corridas de touros. Grupos de defesa da vida animal têm combatido  a Corrida e exposto aquilo que lhes parece mais agressivo e chocante no tratamento dos touros nas arenas. E essa campanha transformou-se num combate político, em que partidos  políticos defendem a proibição dos espetáculos e outros defendem a sua continuação. A opção política neste caso, como em muitos outros, é um caminho difícil porque os entendimentos dos grupos políticos não são unânimes nessas matérias. O assunto pode ser polémico mas a longa vida dessa “arte” e de todas as atividades económicas que rodeiam o espetáculo não são levadas em conta no “deve e haver” da proibição. Os países em que este tema se debate são permanentemente confrontados com os ataques às corridas e com a sua  defesa intransigente por parte de todo um mundo (chamado de aficionado) que se encontra ligado a esta tradição, atividade, indústria, arte, chame-se-lhe o que se quiser. O certo é que as interferências políticas no assunto não trazem, normalmente, resultados palpáveis. São até, muitas vezes, estímulos para o reforço da atividade.  Não me vou alongar na evolução do problema entre nós: muitos dizem que com a evolução e a “modernização” da vida, esta e outras artes acabarão por se extinguir.

Achei, no entanto, curiosa a discussão que se vive em França,  neste momento, justamente pelas mesmas razões. Os responsáveis políticos prevêem a possibilidade de proibir a Corrida a menores de 18 anos.  Um grupo de 40 personalidades do mundo artístico e cultural francês assinou um documento que se opõe fortemente a esta hipotética decisão.  E transcrevo algumas das passagens desse documento:

Nós, homens e mulheres de letras, das artes  e da cultura opomo-nos a esta proposta. Os jovens são dotados de inteligência, de emoção, são sensíveis ao heroismo, estão disponíveis para a beleza, a cultura e a arte. Querer privá-los da complexidade do real, da violência e do sagrado, é desdenhar do seu futuro. A Corrida mais que um espetáculo é uma arte que culmina com o encontro da coragem e da honra em plena arena. Foi por esse compromisso de arte que Cocteau, Picasso, Hemingway ou Francis Bacon  se bateram e no-lo trouxeram até nós. Em democracia , a liberdade é o princípio e a interdição deve ser a exceção. Proibir uma arte é indigno de uma democracia moderna.  Os deputados que defendam a proibição da Corrida a menores de 18 anos retiram-lhes uma parte de sonho, de beleza e tradições em defesa daquilo a que chamam  uma sociedade ainda mais assética. Não há muitos anos era proibido pessoas beijarem-se na rua, em público, como a homossexualidade de Oscar Wilde ou as leviandades de Madame Bovary eram repudiadas e punidas. O avançar da vida não é, normalmente, retrógrada e, como dizia Oscar Wilde, “A beleza está nos olhos de quem vê!”

Esta discussão não é nova. Em Portugal deixou de haver touros de morte mas deu-se grande relevo às pegas com forcados.  Em Espanha, mais sensíveis à Corrida, mantêm-se os touros de morte, embora na Catalunha a prática tenha terminado. Há, no entanto, amigos meus que fazem as suas temporadas em Espanha para assistirem ao que chamam de verdadeiras Corridas. E são excelentes pessoas…  Desde miudo que frequentei as Praças de Touros portuguesas, principalmente o Campo Pequeno, claro. Ainda fui à de Algés que já não existe há muitos anos. O meu pai era, à sua maneira, um apreciador de touradas e levava-me com ele, ainda miudo. Lembro-me de ver Manolete, Gregório Garcia, Diamantino Viseu e Manuel dos Santos, claro.  E acho (opinião pessoal, claro) que não fiquei com hábitos de barbaridade ou de criminoso latente. E, imaginem, gosto de bife com batatas fritas… Deve ser este um último e mais grave resquício  do meu paleolítico pessoal…  E, no entanto, o escritor Patrick d’Avon diz num dos seus textos recentes: “A infância é o terreno da Arte e das mais belas aventuras humanas. É durante a juventude que nascem as vocações.”

A minha vocação nunca foi a de ser toureiro…

 

3 pensamentos sobre “A Corrida de Touros

  1. Nunca fui um grande aficionado, nem aprecio o excesso de bandarilhas desnecessárias a sangrar o lombo do animal. Talvez isso me afaste um pouco dos granes espectáculos. Sei, que o assunto está a ser estudado algures, na Califórnia. com a aplicação de um tipo de Velcro, sem sangue e sofrimento para o animal. Mas, a beleza da Fiesta, o aprumo e a elegância de gestos, nunca deixa de ser apaixonante…! Quantos de nós, mimetizando as grandes vedetas das várias épocas, não desejaríamos executar uma Chicoelina ou um simples Passo por Alto, numa das experiência dos nossos 16/20 anos ? Como tudo, ajudaria a conhecer melhor e a perder o medo dos animais.de grande porte. Talvez a admirar, um pouco mais, a sua força bruta . Um assunto, que a vida da maior parte das grandes cidades nos ocultam.. A um Beef Chateaubriand, ou um Roast Beef , decididamente, também nunca direi que não…! Mas isso, é outra conversa…!

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  2. Também vi muitas touradas na minha vida e o que mais aprecio são as pegas de touros. Mas para haver fairplay, a soma dos pesos dos pegadores não deveria exceder a do touro !
    Mas aproveito para contar um episódio : Na década de 80 estive em Bilbau em serviço da FIMA e levei comigo a minha Mulher ( que aliás era mais apreciadora das Corridas em Portugal do que eu ). Uma tarde, ao voltar para o hotel encontrei-a horrorizada : tinha visto na tv espanhola uma corrida e achou-a demasiado, terrivelmente sanguinolenta !
    E para terminar, uno-me contigo no grito : viva o bife, de vaca, de touro de novilho, com batatas fritas!

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