Padre António Vieira

É fácil de perceber a razão pela qual escolhi este tema para hoje. Nem sequer é o que estava na lista,  mas as manifestações públicas de ignorância levam-nos, por vezes, ao desespero dos sentidos. Por mera coincidência a RTP2 transmitiu esta tarde um excelente programa histórico (que poderá ser recuperado em qualquer box digital) com o nome de “Chá, Café e Chocolate”. É a história longa, relatada por cientistas, historiadores e investigadores de diversos países (francês, holandês e austriaca) sobre a forma de como a descoberta e circulação pelo mundo destas três plantas, chá, cacau  e café, se desenvolveu e propagou pelo mundo, a partir dos séculos XVI e XVII, criando o  que hoje se pode e deve apelidar de comércio global. A Europa, claro, como velho e rico continente, esteve no centro de todo esse comércio. Inglaterra, Itália, França, Holanda e Portugal, com as incontornáveis vantagens dos seus meios marítimos, chegaram aos confins do mundo acabado de ser conhecido, China, Etiópia, Ceilão (atual Sri-Lanka) e Américas centrais e do norte, e recolheram,  compraram ou negociaram aqueles novos produtos que as suas sociedades começaram a consumir e a exigir em grandes quantidades. Claro que esse comércio exigia muito dinheiro, muitos confrontos terrestres e navais e , sobretudo, muita mão de obra para essas expedições.  Os negociantes mais poderosos passaram a apoiar toda essa circulação de matérias e, claro, de gente para essas aventuras. Essa gente eram os nativos dos continentes por onde as naves passavam e aí começou o império dos negreiros e o flagelo da escravatura. África, Ceilão, Antilhas e o futuro Novo Mundo americano foram os alfobres desse recrutamento que passou,  para além do domínio do trabalho, a negociar e a escravizar mulheres e crianças de todos esses mundos.

A história do esclavagismo está sobejamente documentada e não é essa a matéria que me traz aqui hoje. A morte, o assassinato de George Floyd por um polícia americano, foi o rastilho imparável para que, em todo o mundo surgissem as enormes manifestações a que assistimos contra o racismo com a evocação histórica do esclavagismo. Para além das manifestações começaram a aparecer as exumações e depradações históricas. As efígies e estátuas de celebridades, em todo o mundo, relacionadas com essas épocas históricas começaram a ser destruidas ou vandalizadas. Tudo começou com o atirar da estátua de Edward Colston nas águas de Bristol, em Inglaterra, e da retirada das estátuas de Robert Clive,  do negociante escocês Robert Milligan e até a do famoso Francis Drake em Plymouyh.  A coisa não parou e havia, e há, uma longa lista já feita. Já sugeriram o nome do próprio Churchill por ter cedido território checoeslovaco a Hitler o que poderia ter contribuido para a expansão do nazismo.  O movimento “Black Lives Matter” tem, evidentemente,  muitos apoios mundiais. As grandes manifestações de intenções sociais são rapidamente aproveitadas por extremistas que têm objetivos bem mais demolidores para as sociedades democráticas. As estátuas de Jefferson Davis  e as do próprio Cristovão Colombo, nos Estados Unidos, já foram vítimas de depradações, para não falar nas do Rei Leopoldo II da Bélgica dado também como racista. A do próprio Baden-Powell, fundador do Movimento Mundial dos Escoteiros, está a  ser guardada à vista até que se resolva o que se lhe vai fazer. Parece que ele foi amigo do Hitler.

Estes movimentos deviam, sobretudo,  pretender alertar para um mundo ultrapassado que deixou marcas ainda hoje não reparadas nas sociedades internacionais. A eliminação de alguns símbolos não deixa de ser reparador para os grandes grupos desprotegidos mas deverá ter o cuidado em não eliminar as tais raízes históricas de que todos fomos frutos ou vítimas das sociedades em que vivemos. Portugal, com o seu 25 de Abril, soube livrar-se dos símbolos que mais o ofendia nas vidas mais recentes. Haverá outros nomes que, pelo seu conteúdo e envolvimento histórico, poderão merecer uma inteligente discussão sem descurar, no entanto, tudo aquilo que nos deu origem. Para que não se caia no pecado de, um dia, se pretender eliminar o que para aí houver do Infante D. Henrique.

Chego agora ao ponto que pretendia: o da ignorância larvar de parte da nossa sociedade e, infelizmente, da nossa juventude. Um grupo de vândalos, até agora desconhecidos, pintou de vermelho a estátua do Padre António Vieira. Claro que não fazem a mínima ideia quem foi Padre António Vieira e, cada um deles, com o neurónio que lhe reste, não teve, sequer, a prudência de perguntar aos pais quem era aquele padre. Se calhar os pais também não sabiam…

Bom, mas podemos deixar-lhes aqui algumas indicações para se entreterem a ler quando, se apanhados, forem para a prisão. O Padre António Vieira , nascido em 1608

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na Baía, Brasil e também falecido na Baía em 1697, foi um notável religioso, filósofo,  escritor e orador português da Companhia de Jesus. Foi uma das mais influentes personagens do século XVII em termos de política e oratória. Foi missionário em terras brasileiras  defendendo incansavelmente os direitos dos povos indígenas, combatendo a sua exploração e escravização. Em Portugal defendeu os judeus perseguidos pela Inquisição e propôs a abolição da escravatura. Depois de 1640, em Portugal, ganhou a confiança de D. João IV e foi por ele nomeado embaixador e pregador régio. É longa a sua história que vale a pena ler , principalmente os energúmenos que lhe vandalizaram a estátua, se souberem ler. Há uma Obra Completa do Padre António Vieira onde poderão ser encontrados as 700 cartas e os 200 sermões que nos deixou como testemunho. Se os vândalos forem apanhados terão tempo para ler o livro na prisão muitas vezes.

Felizmente que o Presidente da Câmara de Lisboa resolveu, numa noite, a limpeza e a vergonha de tão infame acto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 pensamentos sobre “Padre António Vieira

  1. A escravatura é um horrível flagelo da Humanidade. Mas não foi inventada pelos europeus, desde tempos imemoriais que os povos doutros continentes a utilizaram.
    De facto foram os europeus que iniciaram em termos sistemáticos a luta contra a escravatura

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  2. De tempos em tempos, este nosso mundo engrena em marcha atrás, acelerado pela ignorância e pelo espirito de destruição, plagiando o que de mau se faz lá fora. E não são só os comboios pintados, nem as paredes de uma cidade desfigurada, que nos revolta e entristece. É também o excesso de tolerância, para estes e outros casos, resultando uma das maiores fraquezas da democracia…!

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