O ALGARVE EM MOÇAMBIQUE

Os idos das nossas guerras coloniais trazem-nos sempre à memória, em grande parte, os malefícios de mais de uma década de anos trágicos, desnecessários e com consequências, já algumas vezes aqui abordadas, que se prolongaram nos tempos, ainda com testemunhas vivas desses inúteis e inesquecíveis pesadelos. A juventude de hoje percorre, talvez felizmente, em diagonal, as descrições dos combates, das armadilhas, dos resgates de civis e militares extraidos de um inferno de que poucos, ainda hoje, têm pouca coragem de falar. Mas o estudo dessa época seria muito útil e não deixará de ser cada vez mais aprofundada, conforme os tempos os forem distanciando dos acontecimentos vividos. É assim a História. Relata-se mais o passado remoto do que as vivências recentes.

Mas no meio de todo o drama que foi a nossa guerra colonial surgem sempre pequenos relatos , reais, de gente que por lá passou e conseguiu regressar, mantendo o espírito crítico e de humor que algumas situações picarestas lhes criaram, felizmente sem danos especiais, para além do dano que sempre era o de se ver afastado, no caso dos militares milicianos, das suas profissões e das suas famílias por períodos longos e desnecessários.

É o caso que hoje vos relato, passado no início da década de 70 do século passado em Nampula, no norte de Moçambique. O Departamento de Chefia de Justiça Militar acantonado em Nampula era comandado por um major que já cumpria a terceira missão militar em África, entre Angola, Guiné e Moçambique. Foi, segundo as descrições, um homem sensato, relativamente culto, exercendo uma chefia equilibrada. Nesse seu Departamento estava também destacado um capitão miliciano, oriundo das “artes da justiça”, para além de outros destacados que conseguiram, segundo parece, cumprir sempre bem as missões que lhes reservaram. O capitão, homem culto e amante de livros, deslocava-se com frequência a uma livraria em Nampula, talvez a única digna desse nome, de seu nome Livraria Vilares, onde o “nosso capitão” se abastecia regularmente dos livros com que preenchia os seus poucos tempos de ócio familiar. Numa dessas suas deslocações o seu comandante major pediu-lhe para ver se encontrava e lhe poderia trazer um “livro que ensinasse a preparar discursos”. O pedido foi surpreendente mas não deixou, claro, de ser atendido da melhor forma possível. De regresso ao quartel o “subalterno capitão” entregou ao major o que havia encontrado, não exatamente o que havia sido sugerido mas algo que poderia ajudar às artes discursais que pareciam interessar ao “comando”. Mas não se conteve e perguntou-lhe: “Meu major desculpe, mas a cerca de 3 dias de regressar à metrópole, pedir um livro sobre esse assunto, sugere-me que se vai candidatar a qualquer coisa onde precisa de discursar…! “Acertou, vou candidatar-me à Câmara de Castro Marim, no Algarve”, respondeu o “comandante-candidato”. Grande surpresa no gabinete: o capitão também era algarvio, oriundo de Olhão e muito se regozijou com as intenções do seu atual comandante.

O capitão-juiz regressou, em devido tempo, à metrópole e confirmou que o seu ex-comandante tinha sido realmente eleito Presidente da Câmara de Castro Marim, onde exerceu funções em 1973-1974. Por infortúnio, faleceu em plena sessão no Governo Civil de Faro, em representação do seu município. Mas não acaba aqui este pequeno mundo de coincidências. O ex-capitão, já no exercício pleno das suas funções judiciais, vivia em Olhão (onde tinha nascido) e, na avenida em que habitava, havia uma livraria com o mesmo nome da de Nampula. Como a frequentava com regularidade não hesitou em perguntar se seria a mesma de Nampula. E era! O genro do fundador da livraria moçambicana tinha regressado à sua terra e tinha criado uma réplica da Vilares que, posteriormente, se passou a chamar Livraria Crinar (um acrónimo com iniciais dos nomes de família), livraria que ainda hoje existe na Av. da República em Olhão, 45 anos depois do regresso do seu fundador.

Ora agora digam lá se o Algarve esteve ou não esteve em Moçambique! São pequenos incidentes como este que tornam mais fácil o regresso aos relatos em família do que se passou nos atormentados anos de guerra colonial, para os que lá estiveram, claro.

Um pensamento sobre “O ALGARVE EM MOÇAMBIQUE

  1. São quase sempre interessantes as malhas que a vida tece.
    Em Angola, a livraria ode me abastecia era a Lello, na baixa de Luanda.
    Mas na realidade o que mais me admirou no texto do Manuel José foi a referência a um major miliciano !
    Capitães milicianos encontrei muitos, já em 63-65, no mato de Angola. Mas de facto nunca imaginei que alguém tivesse chegado a major miliciano.

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