O Pior Emprego do Mundo

A expressão não é nova nem é minha , mas vem a propósito do texto que hoje vou escrever quase como homenagem a um cidadão português que vem desempenhando um papel político da maior importância mundial mas sobre quem, em Portugal, poucas vezes se fala e, quando se fala, não é sempre de forma lisonjeira. Trata-se de António Guterres, Secretário Geral das Nações Unidas, escolhido para o cargo depois de uma violenta e bem sucedida campanha diplomática baseada, aliás, nas reconhecidas qualidades intelectuais e humanistas do candidato e as garantias que, desde o início, o seu largo curriculum apresentava. Todos os países são um pouco como o nosso: desdenham subtilmente quem lhes pertence, a maior parte das vezes por saberem da enorme distância intelectual que os separa do seu concidadão. Frequentei o IST no tempo em que António Guterres também por lá andava e todos sabíamos dos dezoitos e dezanoves que acumulava em comparação com os trezes e catorzes da maior parte de todos os outros.

Iniciou uma carreira política que o levou a Primeiro Ministro (de 1995 a 2002), abandonando o cargo, como se sabe, por bem perceber a tremenda incompatibilidade que existia entre a sua maneira de ser e aquilo que era quase obrigado a fazer ou a aceitar da parte do vespeiro político que sempre existe naquele mundo de interesses partidários. Houve quem não gostasse e até depreciasse a sua decisão de abandono mas isso não afetou a sua maneira de ser, de ser solidário com a sociedade, de se entregar a missões que muitos outros nem sequer equacionavam.

Teve uma larga experiência na ACNUR e acabou por conquistar, com todo o mérito, o lugar de Secretário Geral das Nações Unidas, desde 1 de Janeiro de 2017, o tal lugar que, jocosamente, se designa por “Pior Emprego do Mundo”. Em Junho passado a ONU celebrou os seus 75 anos de existência e, na altura, António Guterres concedeu uma entrevista à Lena (um grupo de jornais europeus que compreende Le Figaro, El Pais, La Repubblica, Die Welt, La Tribune de Genève, Le Soir, Tages-Anzeiger e Gazeta Wyborcza). De todas as perguntas que lhe foram feitas respigo alguns dos esclarecimentos que prestou na ocasião.

A ONU padece, na realidade, como muitas outras administrações, de grandes problemas de burocracia. Essa tem sido a sua preocupação mas nunca é fácil obter o consenso de todos os estados membros. “A ONU não é uma federação de democracias, é uma organização na qual todos os países do mundo estão representados. O seu carácter intergovernamental acarreta inevitáveis contradicões.” A ONU trabalha ainda como foi organizada há 75 anos e o Conselho de Segurança, por exemplo, reflete o equilíbrio das potências mundiais no fim da 2ª guerra mundial. Mas não seria justo ver a ONU apenas como um monstro burocrático. Ela garante atualmente metade da ajuda humanitária em todo o mundo. Durante esta pandemia damos apoios a 110 milhões de pessoas em 64 países; fornecemos 250 milhões de equipamentos de proteção em países em vias de desenvolvimento. No ano passado fornecemos assistência alimentar a 87 milhões de indivíduos e metade das vacinas disponíveis em todo o mundo têm o apoio da ONU.

O mundo não tem conseguido encontrar uma resposta comum para a pandemia devido ao desfuncionamento de relações entre as grandes potências. “Acontece muitas vezes que, quando há poder, não há liderança e quando há liderança não há poder”. Já no que respeita ao Conselho dos direitos do homem temos desempenhado um papel importante: no ano passado desenvolvemos 7500 missões relativas a direitos do homem em todo o mundo.

Existe um grande problema no que respeita às contribuições financeiras obrigatórias a realizar pelos países. O atrasos dos Estados Unidos são crónicos e isso cria grandes problemas à organização. A luta contra o virus é, de momento, a nossa maior preocupação mas a questão crucial do nosso tempo são as alterações climáticas. As gerações futuras vão-nos julgar por aquilo que consigamos ou não fazer no nosso tempo. É necessário mobilizar a comunidade internacional para esse tema e para o dos movimentos de refugiados. “A União Europeia tem um papel fundamental a desempenhar. É fundamental o reforço da UE para escapar à ameaça do G2, uma ordem mundial dominada apenas por duas potências, os Estados Unidos e a China. E a Europa parece estar a tomar consciência do importante papel que terá que desempenhar.

É neste cruzamento de interesses, neste dédalo sem fim, que o Secretário Geral e as suas equipas se debatem. Os resultados nunca serão os desejáveis mas serão, pelo menos, indicadores das orientações que todos os países do mundo devem adotar para uma sobrevivência universal. Adepta do papel desempenhado por Guterres, a secretária perpétua da Academia Francesa, Hélene Carrère D’Encausse, disse recentemente: “Chegou o momento de repensar uma Europa baseada na sua civilização”. E acrescenta: “Não se pode perder o sentido da morte e transformá-la apenas num problema estatístico de eliminação administrativa”.

Esta é a luta ciclópica de António Guterres. Os interesses regionais, nacionais, continentais e mundiais são cada vez mais desafiantes. Propor e lançar ideias comuns para a humanidade é um desígnio que dificilmente será atingido pelas Nações Unidas. Agora digam lá se António Guterres tem ou não tem o “pior emprego do mundo”!

3 pensamentos sobre “O Pior Emprego do Mundo

  1. Há uns bons anos atrás, escrevi um texto, num blogue que eu tinha na altura, o que a “secretária perpétua da Academia Francesa, Hélene Carrère D’Encausse, disse recentemente: “Chegou o momento de repensar uma Europa baseada na sua civilização”. E, acrescento eu: baseada no ADN de cada uma das sociedades, na cultura, hábitos, costumes e tradições que as identificam. Não existirá uma verdadeira União Europeia que não tenha em conta os aspectos sociais, culturais e humanos. Não existirá uma verdadeira UE baseada apenas e tão só na economia e finanças e nos países mais ricos. Urge há muito uma grande mudança.

    É um pequeno resumo do que penso desde sempre sobre o papel que a União Europeia devia, deve e deverá ter. Espero que seja uma realidade!!

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  2. O mundo de hoje, pela diversidade de assuntos, parece estar um pouco afastado da grandeza e da importância que a ONU, ainda hoje, representa para a manutenção da paz mundial. Principalmente, para os países mais débeis, onde a pobreza se desenvolve na razão directa do aumento das populações sem escolaridade, das catástrofes naturais e das más políticas obtidas, tantas vezes influenciadas pelos interesses das grandes potências. Nós, europeus, ainda com algumas dificuldades de gestão da própria União Europeia, penosamente, temos vindo a dispersar as atenções sobre aquela que foi e ainda é, a maior obra de paz e progresso mundial. Recordo, quando visitei New York em 1971, ter incluído uma visita ao Palácio das Nações Unidas, onde na Sala de Conferências, sentimos o peso de tantas discussões importantes para a população mundial e hoje tão raramente difundida pela nossa comunicação social. Talvez pela banalização de tanta miséria que o mundo atravessa, não muito longe de nós, tornando as pessoas menos sensíveis ao sofrimento. E esta crónica, fazendo homenagem a um homem de grande sensibilidade humanista, como é António Guterres, teve o mérito de o fazer recordar e quanto este mundo está necessitado de uma ONU forte, a qual, muito tem ainda para fazer respeitar, e defender a integridade e a dignidade de povos, tantas vezes destruídos por interesses obscuros, como os que todos os dias vão aparecendo nos noticiários de última hora…!

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  3. O emprego de António Guterres não é o “o pior emprego do mundo”, mas sim O MAIS IMPORTANTE EMPREGO DO MUNDO.
    Sempre tive e continuo a ter uma grande admiração pelas posições humanistas que AG nunca deixou de mostrar e de lutar por.
    Um grande Português

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