E POR QUE FARIAM ISSO?

Acabam de me chegar às mãos duas notícias diferentes que, embora sem surpreenderem, não deixam de nos obrigar a meditar e a comparar o que são os juízos de valor de diferentes pessoas e/ou sociedades.

A primeira conta-nos uma pequena aventura de um engenheiro argentino, destacado pela sua empresa para trabalhar na Suécia, em Estocolmo. Usou o primeiro dia para se ambientar à vida local e dirigiu-se para o metro da cidade. Ao chegar, verificou que as entradas tinham, como habitualmente, os torniquetes de pagamento mas, algumas delas, tinham passagem livre sem qualquer dispositivo de controlo. Sem saber o que havia de fazer foi perguntar a uma fiscal da estação qual a razão daquelas diferenças. A fiscal respondeu-lhe rapidamente que as entradas sem torniquete eram para pessoas que, por qualquer razão, não pudessem pagar o bilhete. O engenheiro, admirado, insistiu: “Mas se as pessoas tiverem dinheiro e passarem por ali para não pagar?” Ao que a jovem fiscal respondeu: “E por que fariam isso?!” O engenheiro agradeceu, compreendeu, comprou o bilhete e passou pelo torniquete. Claro que isto não se passará só na Suécia mas para muita gente, como nós, portugueses, a pergunta seria irresistível. Tal como a resposta, na sua simplicidade, exprime tão bem o que deve ser o comportamento habitual e responsável de cidadãos livres e naturalmente cumpridores.

A outra notícia está mais próxima de nós, muito próxima mesmo, e deixa-nos, no mínimo, intrigados com a naturalidade com que é encarada. Trata-se do processo que estamos todos a viver, ao longo do país, com o regime público de vacinação contra a Covid19. O sistema geral definido pela Direção Geral de Saúde para todo o país parece equilibrado e justo para toda a população. Eis, no entanto, que surgem, em diversos pontos do país, óbvias e flagrantes transgressões ao sistema em prática, algumas delas com denúncias e queixas formais por parte dos utentes. Os gestores do sistema vieram a terreiro chamando a atenção para os desvios praticados e tentando normalizar as prevaricações. Aguarda-se, com boa fé, que as situações se normalizem mas dificilmente se elimina a ideia de que os transgressores continuam por lá a fazer o que não deviam. “E por que fariam isso?” Muitos desses casos são já do conhecimento do Ministério da Justiça que analisou as diversas situações denunciadas. A própria Ministra diz que “é difícil incriminar pessoas que tenham transgredido as normas cronológicas em vigor, às vezes por questões de amizades ou de proximidades familiares. As sobras de vacinas podem ter sido responsáveis por esses aparentes desvios.” Com todo o respeito que a Senhora Ministra nos merece não é nesses pontos que está o cerne do problema. Um utente que, comprovadamente, é convidado a apresentar-se para ser vacinado apresentar-se-á, sem dúvida no dia e à hora marcados. O problema está a montante, ao nível dos responsáveis que determinaram a sua vacinação. E desses não ouvi a Senhora Ministra falar. São as “capilaridades” dos sistemas, quando as decisões ficam nas mãos de executantes que esquecem ou arrepiam as normas gerais do sistema. E, muitas vezes, comprometendo-o. Essa falta de ética e de responsabilidade profissional não estão a ser acompanhadas. Haverá razão para queixa judicial por parte de utentes que, tendo sido ultrapassados nas suas ordens de vacinação em benefício de outros mais novos, acabem por ser contaminados?

Não, não deve ser isso que se está a passar… Os responsáveis devem estar a cumprir… E, relembrando, a fiscal do metro de Estocolmo: “Por que fariam isso?”

Um pensamento sobre “E POR QUE FARIAM ISSO?

  1. Há cerca de 60 anos o meu Pai foi a um Congresso a Estocolmo , voltou encantado, mas o que mais o imprecionou foi nas Livrarias deixar-se o pagamento do livro que se comprava num local próprio sem ser preciso passar por uma caixa ou empregado. Porque será que nunca esqueci ?
    O que seria em Portugal .?
    Querido Manuel Jé continua a escrever porque é a melhor maneira de transmitir a nossa HISTÓRIA
    Beijo Peewee

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