MAESTRO JAMES LEVINE

Há personalidades que em diferentes atividades e artes ficam como indeléveis referências para História futura. Dá-se a coincidência de ter falado recentemente neste blogue, no dia 23 de Fevereiro último, do desaparecimento de um maestro português, José Atalaya, que bem poucas referências mereceu nos nossos meios de comunicação social. Praticamente um mês depois, a 17 de Março, desaparece também um maestro de fama mundial, sem que os nossos meios de comunicação (insisto, os nossos) tenham dado grande relevo ao caso. Acontece que James Levine foi um dos mais famosos maestros do século XX. Nasceu em Cincinnati em 1943, neto de um cantor de sinagoga e filho de um violinista de orquestra de dança e de uma atriz. Foi um pianista sobredotado e aos 10 anos toca em público o Concerto nº 2 de Mendelssohn. Iniciou os seus estudos de direção de orquestra. Em 1971 substituiu o maestro titular da Orquestra de Chicago dirigindo a 2ª sinfonia de Mahler. Propuseram-lhe de imediato a direção do Festival de Verão, em Ravinia. Nesse mesmo ano estreou-se no Met de Nova York com a Tosca. Dois anos depois, aos 30 de idade, assumiu o cargo de Maestro Principal. Manteve-se e transformou, até 1989, o prestígio do Met. Atingiu níveis de excelência e notoriedade que a orquestra nunca tinha conhecido. Dirigiu todo o repertório de Mozart, Verdi, Wagner, Berg e Schonberg nas suas criações mais raras. Ao aceder à celebridade internacional devido à filmagem que Zeffirelli fez da sua direção da ópera Tosca, a Europa interessou-se por ele e atuou em todos os grandes areópagos da música. A partir dos anos 2000 a sua carreira centra-se mos Estados Unidos. Sempre reconhecido como um grande “Wagneriano” e especialista em Mahler.

Durante muitos anos acompanhei-o, por via digital, claro, nas suas grandes interpretações. Achava-o magnífico com a sua cabeleira loura e revolta, o seu facies de menino grande e as extraordinárias expressões que utilizava na condução das suas orquestras. Foram momentos de enorme prazer. Há bem pouco tempo, já depois da sua morte, voltei a apreciar, no inefável YouTube, a sua direção da orquestra de Filadelfia tocando a Sinfonia nº 9 de Mahler.

Todo o seu sucesso começa, no entanto, a decair a partir de 2008 quando foi atingido pela doença de Parkinson e por um tumor cancerígeno num rim. Demitiu-se da Sinfónica de Boston mas não do Met onde as suas intervenções em cadeira de rodas ainda esgotaram audiências. Até, infelizmente, 2017 quando foi acusado de agressão sexual por 4 homens. Foi afastado da orquestra e viu-se envolvido em difíceis processos judiciais. O movimento #MeToo envolveu-o também nas suas dolorosas campanhas o que, em conjunto com os seus terríveis problemas de saúde, o transportaram a um fim penoso e infeliz.

Quando o tempo o permitir voltará a ser proclamado como uma das batutas mais extraordinárias do século XX.

E julgo que esse reconhecimento já começou com a edição de um disco, divulgado no YouTube, com o nome de In Memoriam James Levine (1943-2021). São poucos os que não o conheçam. Mas para esses poucos recomenda-se tudo o que sejam intervenções do Maestro James Levine. R.I.P.

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