PIRATAS NO ALGARVE

Não se assustem, os piratas a que me refiro não são os da atualidade (pelos vistos e ouvidos continuam a existir). A pirataria de que aqui falo tem a ver com os estudos e investigações de um historiador algarvio, Fernando Pessanha, que se tem dedicado a vasculhar as ações de piratas marítimos por alturas dos finais do século XVI.

Trata-se de um relato e investigação que, embora limitado a uma época remota e a um local ainda mais peculiar, não deixará de colher o interesse dos que se dediquem a estes envolvimentos históricos. Não é, devo reconhecê-lo, o meu caso. O que me atraiu foi o local onde estas coisas se passaram. Como se sabe sou um forte adepto das coisas algarvias e, principalmente, o que se passa no chamado “sotavento” (lado para onde sopra o vento dominante), o que significa preferir as regiões do sudeste, de Tavira até Vila Real de Santo António.

Conta-nos Fernando Pessanha ter encontrado relatos de ações corsárias de um tal João Vaz que descobriu ser, após muitas investigações, um renegado natural do sotavento algarvio, “um dos principais pescadores de Tavira que, depois de residir no Porto de Santa Maria, acabou por se fixar em Arzila com a sua família, escusando-se frequentemente em colaborar com o capitão desta praça no combate aos mouros”. Era tido como “um cobarde servidor de el-rei” até que renunciou à fé cristã e se converteu ao Islão. Foi nessa altura que, passando-se para o lado dos mouros, se transformou num temido corsário ao serviço do alcaide de Larache. Por conhecer bem aquelas costas marítimas dos seus tempos de pescador provocava danos frequentes no litoral algarvio, onde capturava cristãos e os levava para o norte de África, tal como aconteceu no ataque a Arenilha e a Monte Gordo no ano de 1531. Capturou duas caravelas e vinte e cinco ou trinta pessoas o que, pelas relatos da época, seria uma parte significativa das cerca de 230 pessoas que poderiam, à época, viver naquelas vilas. Este ataque foi importante para a época em apreço, ao ponto de aparecer registado num documento castelhano, carta do capitão D. Gabriel de Córdova para D. Isabel de Portugal, datada de Agosto de 1531. Não se sabe se a esposa de Carlos V e então regente de Espanha terá chegado a alertar o marquês de Ayamonte, que estava incumbido da “guarda de costa” para a iminência deste ataque.

De acordo com os relatos do cronista Bernardo Rodrigues o referido João Vaz não terá levado a melhor durante muito tempo. Nos chamados “Anais de Arzila” relata-se em pormenor “como se ordenou a morte de João Vaz”, alguns dias depois do referido ataque a Arenilha e Monte Gordo. O capitão de Arzila terá mandado o “adail” Lopo Mendes com quarenta cavaleiros espiar o rio daquela cidade (o Guadiana) e foi então que João Vaz foi avistado “a pescar liguados” o que Pero Moreno aproveitou para o liquidar atravessando-o com uma lança. E foi assim que ele acabou os seus dias, varado pelas lanças dos seus anteriores irmãos de fé. Como diz o historiador: “Quem pela espada vive, pela espada morre!”

No próximo dia 18 de Novembro terá lugar na Biblioteca Municipal de Vila Real de Santo António, o lançamento do livro “A pirataria no extremo sudeste algarvio nos alvores da Idade Moderna”. Boa oportunidade para os interessados por estes temas melhor se identificarem com os “idos de Monte Gordo”. Por mim, que não poderei estar presente, já fico consolado em saber da punição imposta a quem tanto perturbou, há tantos anos, a boa gente daquela terra.

Se o João Vaz conhecesse hoje Monte Gordo não faria o que fez na sua época. Se calhar comprava lá um apartamento para a família e vivia tranquilamente a pescar linguados.

Mas o problema é que, nos dias de hoje, a pirataria não se extinguiu e já não há lanças que trespassem os provocadores. As malfeitorias fazem-se à distância, por meios informáticos, e os provocadores ou “dão o salto” não se sabe bem para onde ou continuam regaladamente a viver nas suas mansões ao abrigo de infindáveis recursos jurídicos que se prolongam até à eternidade ou até à fase em que as degradações mentais não lhes permitem, teoricamente, lembrar-se de tudo o que se passou.

Há que reconhecer que as lanças eram mais rápidas a eliminar culpados do que os retorcidos processos, legalíssimos, que enchem os bolsos de gente habilidosa que conhece muito bem as entretelas e as costuras de tudo o que é lei, decreto-lei, despacho e quejandos. Não, não queremos voltar ao tempo das lanças mas esta “coisa” do João Vaz deixa-nos a pensar. Quem puder deve ir ao lançamento do livro do nosso historiador. Talvez surjam mais ideias. Às vezes não calha mal ouvirmos um bocadinho da História antiga. Para quem não é da especialidade, claro.

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