OS DOIS ORAGOS DE LISBOA

Hoje é feriado em Lisboa, é Dia de Sto. António. Santo desde sempre muito popular, a celebração do seu dia é sempre preenchida com festas por toda a cidade: os bairros de Lisboa enchem-se de gente para os jantares de família com sardinhas e algum vinho… Na Avenida da Liberdade desfilam, desde há muitos anos, as marchas dos bairros e há sempre um vencedor. O desfile é na noite do dia 12 e por isso já hoje posso dizer que a vencedora, este ano, foi a marcha do bairro da Bica. Há também as noivas de Santo António, casamentos promovidos e apoiados pela Câmara Municipal desde há bastante tempo. Enfim, dois dias de grandes festejos em honra do Santo que, por curiosidade , não é o único Patrono de Lisboa.

Vamos à História que vem, aliás, muito bem descrita pela jornalista Ana Meireles no Diário de Notícias de há dois dias. São Vicente foi um santo espanhol que nunca passou por Portugal mas que é considerado o Padroeiro do Patriarcado de Lisboa com celebrações religiosas até cerca da Caldas da Rainha. Como aparece São Vicente, um religioso espanhol, nestas relações?

Conta-se que , no século IV, S. Vicente foi torturado até à morte pelo imperador Diocleciano por se recusar a prestar ofícios aos deuses pagãos. Com a invasão muçulmana os seus restos mortais foram colocados num barco à deriva que acabou por dar à costa em Sagres. Já no século XII, D. Afonso Henriques prometeu trazer as relíquias do santo para Lisboa se conseguisse conquistar a cidade, o que veio realmente a acontecer em 1147. E as ossadas do santo vieram de Sagres para Lisboa em 1173 numa nau, diz-se, sempre acompanhada por dois corvos. Daí a explicação para o brazão de Lisboa ser uma nau com dois corvos. E ainda hoje se celebram cerimónias religiosas em honra de S. Vicente, a 22 de Janeiro. Santo António começou a ser celebrado ainda antes do terramoto de 1755, sempre com procissões alusivas. A partir da restauração de 1640, S. Vicente perde visibilidade, principalmente por ser um frade espanhol que nunca esteve em Portugal. Santo António passou a ser o único verdadeiramente venerado pelo povo lisboeta embora as relíquias de S. Vicente se encontrem na Sé de Lisboa, bem perto da pequena Igreja de Santo António onde terá existido a casa dos pais do santo lisboeta. O Convento de S. Vicente de Fora foi construido em honra do outro padroeiro e chama-se “de Fora” por, na altura, ter sido construido fora das cercas de Lisboa.

Santo António, com 30 anos, foi em missão de evangelização para Marrocos, onde esteve apenas um ano por ter adoecido. Foi embarcado para Lisboa mas uma tempestade arrastou o navio até Itália onde passou os últimos anos da sua vida. Acabou por morrer em Pádua, cidade da qual também é padroeiro, onde repousam as suas relíquias, e por isso é conhecido em Itália por Santo António de Pádua.

Isto de Santos patronos é coisa muito delicada. A Igreja sempre tentou salvaguardar os dois nomes mas o facto de S. Vicente ser espanhol e nunca ter vindo, vivo, a Portugal (embora por cá se encontre morto) amorteceu-lhe a popularidade e Santo António passou a ser, praticamente, o único realmente venerado. Embora os seus restos mortais não se encontrarem em Lisboa mas em Itália.

Como alegoria e conforto histórico por S. Vicente nunca ter estado em Portugal, também poderemos consolar os mais crentes nesse patrono que Bizet compôs a sua agora famosa ópera Carmen, passada em Sevilha, sem nunca ter saído de Paris. Eu continuo a achar graça ao Santo António e aos manjericos que, nesta altura, tão bem perfumam as nossas casas.

E ainda posso recordar o famoso poema de Augusto Gil, O Passeio de Santo António, tão bem recitado por João Vilaret, que começava:

Saíra Santo António do convento,
a dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um cândido sermão sobre o pecado.


Vale a pena relembrar este pequeno e belo poema num dia tão popular e tão festejado.

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