Resvalar num espelho duplo

Um bairro inteiro a demolir. Casas. Homens desmembrados como pedaços de blocos maciços de betão. Paredes de cores fortes a empalidecer. Quando cai uma casa é como se resvalasse um espelho duplo sob o rosto das palavras. Ninho. Lar. Cama. Café. Nos quadros que as paredes ostentavam oculta-se agora um retoque de céu. Um olhar … Continuar a ler Resvalar num espelho duplo

A frase de G.

quando me sentei na relva e me encostei ao tronco de uma árvore era só para sentir a explosão das flores lembrei-me, repentinamente, da frase de G. - 'é impressionante a naturalidade com que a música flui' no degelo, há um som líquido que se acende no interior da terra - digo-te eu

O tempo. Aqui.

O passo cadenciado principia aqui. Os pés a rasar o cimento. Ainda fresco. Como a manhã. Vamos em direcção ao sul onde o sol nos arranca a sombra. Somos só nós e uma luz de espanto a silenciar as árvores. A dilatação das pupilas neutraliza cada respiração. Há quem reaprenda a caminhar e esconda o … Continuar a ler O tempo. Aqui.

A persistência da infância

Há manhãs em que me enrosco num novelo de veias e terminações nervosas. Como se sentisse a agitação da terra que não sucumbiu à noite. Suores frios de receios infantis são, na manhã, gotículas dormentes sobre o cobertor de papa. Memórias doces atravessam-me os olhos que recuso abrir. As pálpebras como janelas fechadas a querer … Continuar a ler A persistência da infância