MESTRE MANUEL CABANAS

Manuel Cabanas foi um homem, como há muitos semelhantes no nosso país e por esse mundo fora, com uma inquebrantável força de vida, uma inteligência brilhante mas modesta, uma referência perene para a sociedade com a qual conviveu e para a que, por razões da vida, não teve oportunidade de conhecer a sua personalidade.

Há outros como ele, claro, mas este viveu sempre numa região que frequento desde há muitos anos e onde tive ensejo de conhecer a sua obra e ainda de o conhecer em vida (faleceu em 1995). Manuel dos Santos Cabanas nasceu em Vila Nova de Cacela em 1902 e faleceu, como já disse, em 1995. De origem humilde fez apenas a instrução primária e dedicou-se ao trabalho de campo. Em 1920 passou a trabalhar nos caminhos de ferro tendo-se mudado, dois anos depois, para o Barreiro. Aí iniciou a sua atividade de sindicalista, com funções no Sindicato dos Ferroviários do Sul e Sueste. Iniciou por aí a sua luta contra o fascismo tendo sido preso uma vez, por pouco tempo, quando se dirigia ao quartel de fuzileiros de Vale de Zebro para o tomar para a causa revolucionária. Em 1927, por ocasião da revolução de 7 de Fevereiro, o Almirante Mendes Cabeçadas Junior (à data capitão de fragata e Capitão do Porto de Vila Real de Santo António), convidou-o a integrar a comissão revolucionária local.

Apesar da forma discreta como desenvolvia a sua atividade revolucionária foi sempre aumentando os seus conhecimentos de forma autodidática chegando a conviver e a participar em iniciativas onde se encontravam grandes vultos da política portuguesa, como Aquilino Ribeiro, Ramada Curto, Bento de Jesus Caraça, Raul Proença, Raul Rego, Piteira Santos, José Magalhães Godinho e outros. Fez parte da direção do Asilo D. Pedro V, no Barreiro, e desenvolveu grande atividade em prol da Comissão Nacional de Assistência aos Tuberculosos.

Em 1938 Manuel Cabanas iniciou a sua vida artística, dedicando-se à xilogravura (gravura em madeira), tendo começado a expor os seus trabalhos em 1939 pelos quais recebeu diversos prémios, entre eles a medalha de ouro das Belas Artes. Nos anos 50 e 60 integrou as tertúlias da Livraria Bertrand e do consultório do Dr. Francisco Pulido Valente ao Chiado. Foi sócio efetivo da Sociedade Nacional de Belas-Artes. Depois do 25 de Abril de 1974, já septuagenário, foi chefe de redação do Jornal do Povo.

A sua obra artística ganhou fama internacional e os seus quadros de xilogravuras representaram, essencialmente, a arte de pesca algarvia, sobretudo o copejo do atum (de que disponho de dois exemplares)

Em 1974 doou o essencial da sua obra xilográfica original e a sua coleção de arte ao Museu de Vila Real de Santo António de que foi conservador nos últimos anos de vida e que ainda hoje pode ser visitada. Faleceu aos 93 anos de idade, no dia 25 de maio de 1995, no hospital de Faro.

Em 1993 foi inaugurado, com a presença do Presidente Mário Soares, um busto em bronze, em sua memória, em Vila Nova de Cacela. Em 1985 foi condecorado com a Ordem da Liberdade, no grau de Comendador, pelo então Presidente da República, António Ramalho Eanes. Em 1993 foi agraciado pelo Presidente da República Mário Soares, com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Dá-nos algum consolo reavivar a memória de gente desta que viveu já no nosso tempo e que, por afastamento geográfico dos centros de decisão, acabam por não ser tão lembrados como mereciam. Procurem mais informação sobre o Mestre Manuel Cabanas.

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