SILLY SEASON ?

Desde há muito que a época de férias é considerada uma época morta e sem acontecimentos especiais. Os importantes do mundo hibernam ou, pelo menos, não se fala deles. As praias ou os refúgios campestres são as zonas para onde grande parte dos mortais se retira, pelo menos por algum tempo, e passam a ignorar o que se passa no mundo real, o lá de fora. Os tempos evoluiram, os meios e as chamadas plataformas de comunicação chegam a toda a parte e, se repararmos com atenção, muita dessa gente que fugiu para as praias está debaixo do toldo agarrada ao telemóvel para ver cabeçalhos mais sonantes ou descobrir novos jogos de monstros a avatares para matarem o tempo livre.

Os ingleses inventaram há uns séculos a designação de “silly season” para esta época em que aparentemente nada acontece e as pessoas preferem tolerar os disparates. Na realidade já não é bem assim, como, aliás, nunca foi. Dantes não havia informações que nos chegassem a tempo, agora tudo nos chega na própria hora. E se estivermos com um pouco de atenção verificamos que nesta época também acontecem coisas importantes e graves por todo o mundo.

Entre nós, por exemplo, a inflação sobe ou desce , o desemprego aumente ou diminue, os médicos e os enfermeiros vão fazendo greves, os juros da banca aumentam mas, na realidade, a ressonância desses fenómenos não é a mesma da que se propaga nas chamadas “estações úteis”. O ex-presidente Trump é acusado de ter escondido ou guardado milhares de documentos classificados dos seus tempos de governo e isso é coisa para se perceber mais tarde. Entre nós surge a novidade de que um dos mais ilustres banqueiros que embelezaram a alta sociedade do antes e do depois do 25 de Abril foi, ao fim de cerca de uma dezena de anos, informado de que irá a julgamento acusado de 65 crimes (se não me falha a memória estival…), coisa que também é assunto para se ver depois . Quem já esperou tantos anos por este óbvio desfecho não se livrará de aguardar outros tantos ou mais para que haja conclusões desse julgamento. Coisa que não espanta os mais conhecedores quando outro processo, envolvendo, esse, um ex-primeiro ministro, também não sai da cepa-torta. Coisa para se falar depois da “silly-season”. A guerra na Ucrânia, embora continue, (a Catedral de Odessa foi mortalmente atingida) parece que está num intervalo. No entanto quase todos os dias morrem dezenas de civis inocentes e acontecem desgraças como a da catedral. Mas o Putin, como as coisas não estão fáceis por aquelas regiões já anda a fazer acordos com países africanos para lhes vender coisas que os seus vizinhos do norte não lhe querem comprar. Coisa a ver-se para depois de férias… O Primeiro Ministro do Reino Unido e sua bilionária mulher fizeram um acordo, também bilionário, com a BP que deixaria qualquer governo mais comedido a corar de vergonha. Logo se vê depois, também… No Niger houve um golpe de estado e o comandante do golpe (um tal Abdourahamane Tchiani) já apareceu na TV a expor as suas razões mesmo em confronto com os avisos das Nações Unidas. Logo se vê, depois das férias… Em Singapura foi executada uma mulher pela primeira vez em quase duas décadas. Ninguém deu por isso… Os Estados continuam a não legislar para combater as alterações climáticas, prejudicando, assim, os povos e os países mais pobres. Mesmo com as aparições frequentes de António Guterres a apelar a essa obrigação internacional. Enfim, coisa em que se pode pensar depois das férias…

Abstenho-me de referenciar mais desgraças que têm acontecido e que continuarão a acontecer até que termine esta “silly-season”. Não é do meu jeito fazer o papel de urubu da desgraça. Tudo isto não é mais do que um desabafo de quem, na realidade, se encontra também envolvido por esta “mornaça” desgastante. Serve, pelo menos, para lembrar que o mundo não está parado.

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