GERTRUDE

Acho que não é impressão minha admitir que o comportamento dos condutores automóveis, nos países e nas ruas onde há semáforos, é extraordinário. Há muito que as pessoas interiorizaram a naturalidade não forçada de parar com o vermelho e andar com o verde. Dá impressão que não tem importância nenhuma mas, se pararmos para pensar, não há dúvida que esse acto se tornou instintivo, quase orgânico. Sabemos que o mundo tem vindo a mudar com maior ou menor rapidez mas, sabendo-se também que há tantas regras que são de difícil aceitação e o seu não cumprimento causa tantos danos aos cidadãos, haveremos de concordar que a fluidez do trânsito gerado pelos sistemas de semáforos se tornou, na prática, um comportamento admiravelmente natural.

O sistema de semáforos em Portugal foi instalado em 1985, inicialmente nas zonas da Praça do Comércio, Restauradores, Marquês de Pombal, Saldanha e Campo Pequeno.

O seu criador foi o francês Christian Franceries e o sistema foi batizado com o nome de GERTRUDE que era, afinal, formado pelas iniciais da sua designação técnica: Gestão Eletrónica de Regulação do Tráfego Rodoviário Urbano Desafiando os Engarrafamentos. Houve, mesmo já em 1985, quem atribuísse o nome do sistema como homenagem velada à Senhora Gertrudes Tomás, mulher do antigo Presidente Américo Tomás, que só veio a falecer em 1991. Não era verdade, claro.

Muitos de nós somos do tempo em que o trânsito era regulado por experientes polícias sinaleiros que se distinguiam dos outros pelo seu capacete branco (conhecidos brejeiramente por “cabeças de giz”) mas que geriam a circulação automóvel com grande eficiência e alguns até com grande elegância. Havia até o Natal do Sinaleiro, época durante a qual as prendas dos circulantes se amontoavam em torno dos seus plintos de trabalho. O que se situava entre o Rossio e os Restauradores era célebre pelas prendas mas também pelo quase bailado que efetuava nos seus movimentos de orientação do trânsito.

Tudo isto fará parte da História a muito curto prazo. A EMEL já iniciou a substituição do sistema por outro mais moderno, (o SIM,Lisboa) em 2019 que tem com objetivo dar sinais ao trânsito em tempo real. Dos 547 cruzamentos de Lisboa, 138 já estão ligados ao novo sistema. E não tenhamos dúvidas que a Inteligência Artificial e toda a galáxia de satélites que nos rodeiam acabarão por nos deslumbrar com maravilhas (aqueles a que ainda assistirem) que relegarão a Gertrude para um rodapé da História. Veículos sem condutor e outras surpresas que nos anunciam farão da fluidez do trânsito uma autêntica delícia. Até que o Sistema se engasgue e comecem, de novo, os choques e engarrafamentos.

Eu cá por mim sempre me dei bem com o Gertrude.

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