É o 11 de Novembro. É a tradição. Come-se castanhas e bebe-se vinho, água-pé ou jeropiga. Pelo menos, por cá. Noutros países parece que a coisa é diferente.
Mas afinal quem foi São Martinho que leva muita gente até às linhas vermelhas da embriaguez? São Martinho de Tours foi um soldado romano nascido na Hungria cerca de 316 e que, depois de ser batizado, renunciou à vida guerreira e fundou um mosteiro em Ligugé, em França, onde seguiu a vida monástica. Mais tarde recebeu a ordem sacerdotal e foi eleito bispo. Morreu a 8 de novembro de 397.
Das diversas lendas que sobre ele se contam talvez a mais conhecida seja a que diz que Martinho de Tours se terá encontrado , durante uma tempestade de neve, com um mendigo a quem ofereceu metade do seu manto, depois de o cortar com a espada, para o abrigar da chuva e da neve. Martinho terá sonhado nessa noite com Jesus, vestido com metade da sua capa, que terá dito a um grupo de anjos: “Foi São Martinho catecúmeno quem me agasalhou”. E daí se tornou santo.
Santo celebrado em muitos locais do mundo. Na Suécia come-se, a 10 de novembro, véspera da comemoração do enterro, uma refeição que começa com sopa negra, seguida de ganso assado e terminando com bolo de maçã típico do país. Estes suecos nunca se trataram mal…
Em Portugal a coisa fia mais fino. Bebe-se o primeiro vinho do ano, come-se castanhas assadas e acompanha-se a festa com água-pé ou jeropiga. Tudo bebidas fortemente espirituosas. Não consta historicamente que o Santo fosse amante deste tipo de bebidas mas, reconheçamos, para quem levou vida monástica, não seria de admirar que os canjirões da época se lhe esvaziassem pela goela. Diz-se também que neste dia o tempo está sempre bom chamando-se-lhe até “o verão de São Martinho”. Já fui à rua hoje e o Santo não cumpriu a promessa. Está encoberto, talvez ele nos esteja a espreitar lá de cima para ver quem já mastigou as castanhas e bebeu os vinhos tradicionais. Pela minha parte estarei salvo. As castanhas assadas (compradas num assador de rua) estavam bem boas e da jeropiga nem vos digo nada… Se calhar precisávamos de mais santos destes que nos alegrassem e nos levassem a esquecer, pelo menos por algum tempo, as barbaridades diárias por que somos assolados.
Como se lembram, o anarquista perguntava sempre: “Há governo?” Se lhe dissessem que sim ele respondia: “Sou contra”. Na altura em que estamos, se não há governo (o que parece ainda não ser oficial) acho melhor comer castanhas e provar o vinho.
Isto das tradições tem muito que se lhe diga!
E de tudo se faz também um pouco de poesia. ..! Ary dos Santos, assim quis marcar este dia. E Carlos do Carmo cantou, encantando quem se lembra destes Outonos fumegantes, que nos reconforta a alma e as mãos frias…!
«Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.»
O Homem das Castanhas
Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono, à esquina do Inverno,
O Homem Das Castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.
É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p’ra casa.
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Também sou um grande apreciador de castanhas assadas. Mas hoj e não tive sorte com o assador de rua onde comprei : castanhas de má qualidade e mal assadas
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