RENASCIMENTO DO COMBÓIO NOTURNO

Os europeus habituaram-se, nas últimas décadas, a voar. Isto é, a viajar depressa de cidade para cidade, sempre a tempo de chegar a horas a uma reunião ou almoçar com um cliente e voltar, no mesmo dia, à sua terra. Muitos de nós fizemos isso durante as nossas vidas profissionais úteis. E com algumas vantagens, diga-se. Independentemente do facto de ter que se estar no aeroporto ás 6 da manhã para um voo que só parte às 9:00, se não houver atrasos. E depois de se ter descalçado, revistado e ter mostrado a marca das cuecas para garantir não haver bolsos para armas ou drogas. Enfim, desculpem, uma “chatice”.

Mas esta coisa do clima e da imposta diminuição de poluição ( o Secretário Geral das Nações Unidas, bom rapaz, não nos larga) obrigou os mais sabedores desta ciência de viajar a estudar outros processos e a sugerir-nos alternativas mais aliciantes. E criaram o reaparecimento do combóio noturno europeu que reúne, realmente, muitas propostas aliciantes.

Já está a funcionar o expresso da noite Paris-Berlim mas as ligações para Bruxelas, Viena, Veneza, Estugarda estão já em desenvolvimento progressivo. Há que reconhecer que embarcar em Berlim às 8:18 h da noite e chegar a Paris às 10:24 h da manhã seguinte não deixa de ser uma aventura desafiadora. A noite passada em camas confortáveis, ao lado de casas de banho bem equipadas, permite-nos aproveitar a noite sem perturbações e aparecer na cidade de destino a tempo e com o vigor de uma noite bem dormida, de um duche perfumado e de um pequeno almoço “à maneira”.

Casa da banho de bordo
Cabine de camas

Segundo os lançadores do projecto esta iniciativa dá outra forma à geografia europeia. Viajar de noite é poupar tempo e as cidades tornam-se agradáveis locais de desembarque ou passagem, satisfazendo todos os objetivos turísticos, de negócios e, acima de tudo, indo ao encontro dos apelos anti-poluição dos transportes aéreos. Além de que estas viagens podem ter sempre o seu lado romântico, fazendo-nos lembrar as épocas gloriosas do Expresso do Oriente, sem os crimes da Agatha Christie, claro. E se as cabines de camas forem reservadas para um só casal poderemos pensar num romantismo muito mais efervescente! A Europa, segundo os profetas desta iniciativa, vai adotar, rapidamente, este novo modelo.

O único problema para todas estas viagens e mudanças de cidades é o facto de alguns países não usarem a mesma bitola ferroviária já em uso noutras paragens. O que vale é que em Portugal todos falam da famosa bitola europeia e, portanto, a coisa talvez vá. Só espero que não seja como o aeroporto, inaugurado na minha juventude, que ainda presta um excelente serviço mas a cuja substituição estou certo de já não assistir.

Mas quando forem para lá dos Pirinéus (não será o meu caso) aproveitem estas mordomias porque o Secretário das Nações Unidas vos agradecerá.

2 pensamentos sobre “RENASCIMENTO DO COMBÓIO NOTURNO

  1. Este assunto trouxe-me à memoria, as diversas viagens que fiz em comboios nocturnos, pela Europa, com ganhos de tempo para fazer as visitas pretendidas. Optava pelo velhinho Sud-Express, como início de viagem ao cair da noite, chegando a Handaye pelo princípio da manhã, partindo depois para Paris no TGV, bem mais confortável, seguindo um programa de viagem, por vezes, bem mais longo. Até lá, o Sud-Express, com carruagens da Compagnie Internationale des Wagons-Lits, fazia-me a delicia de imaginar o Express Orient que sempre desejei viajar, e que tantas leituras nos proporcionou. Um pequeno passeio pelo corredor lateral, para desentorpecer as pernas e apreciar os passageiros e passageiras que faziam também a mesma viagem, encetando alguma conversa de ocasião. A Carruagem Restaurante, um pouco menos requintada, ainda fazia transparecer uma época romântica, através da sua baixela própria, que muitos coleccionadores desejariam ter nas suas estantes, como se verificou nos leilões, após a sua dissolução. Talvez nos faltasse a companhia do Inspector Poirot, para nos divertir, fazendo passar o tempo de viajem, sob o olhar perspicaz de Agatha Christie. Eram tempos em que as horas não contavam, e aproveitávamos para uma boa leitura, apreciar a paisagem, ou ainda uma conversa com novos conhecimentos de momento…!

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