A profissão de árbitro desportivo poderá ser aliciante mas tem grandes contratempos. Em especial no que diz respeito aos árbitros de futebol. Eles tiram cursos básicos, cursos de especialização, cursos de atualização e cursos de ética desportiva, neste caso em conjunto com participantes de outras atividades desportivas. Depois vão subindo de qualificação em função dos seus desempenhos e alguns chegam a árbitros internacionais. Cá e lá fora, é a mesma coisa.
Depois vêm os casos concretos das arbitragens em campeonatos importantes, principalmente os de primeira categoria. E aí não são só as equipas que apreciam o trabalho dos árbitros, são principalmente os espectadores que os observam e, na maior parte dos casos, assobiam-nos, insultam-nos e qualificam-nos nas escalas mais baixas da dignidade humana.
Inventaram, há uns anos, uma coisa tecnologicamente deslumbrante a que chamaram VAR e que corrige ou confirma as dúvidas das arbitragens. Dizem as más línguas que quem está no VAR são árbitros amigos do árbitro em campo e isso tem gerado comentários com obscenidades variáveis. Eu sou daqueles que quer acreditar na imparcialidade dos árbitros e na justeza das suas decisões. Mas, “penitência minha”, acabo, muitas vezes, por pronunciar impropérios iguais aos dos familiares ou amigos que me acompanham nos relatos. Uma vergonha! Eu, que tenho um passado de dirigismo desportivo de que me orgulho, acabo por desmerecer desse meu passado ao assistir a coisas que me parecem intencionais e inacreditáveis.
Ora o que se passa por cá, passa-se em toda a parte onde o futebol é a paixão das multidões. Um dia destes, o presidente do clube turco MKE Ankaragucu, Farouk Koka, não resistiu também a uma decisão do árbitro do jogo em que estava envolvida a sua equipa e perdeu a cabeça. Não se pense que o homem é costumeiro nestas coisas. Pelo contrário, foi-lhe atribuído um prémio de ”fair-play” em Novembro de 2022 e sempre tem recebido as simpatias dos associados. Mas desta vez, ao ver o seu clube sofrer um golo que lhe pareceu ilegal, não resistiu em saltar para o campo e dar um tremendo murro no árbitro do jogo.

Depois da confusão criada o jogo foi interrompido, o árbitro foi para o hospital para observação e o presidente entregou-se de imediato às autoridades, penalizando-se pelo seu procedimento e reconhecendo que este tipo de atitudes não podem prevalecer nos campos desportivos. O homem foi preso, claro, sem no entanto deixar de dizer que as arbitragens na Turquia não andam a correr bem. O que já tinha sido afirmado pelo presidente do Fenerbahce, em outubro passado, ao dizer: “Tem havido nas últimas semanas decisões muito estranhas por parte das arbitragens com influências decisivas nos resultados”. Também o presidente do Besiktas diz que o seu clube tem sido perseguido pelos árbitros e pelo VAR acrescentando “que os árbitros deviam ser punidos pelos erros que cometem”.
O que se passou na Turquia ainda não se passou entre nós, embora as ameaças já tenham sido muitas, as equipas técnicas muito penalizadas com cartões amarelos, depois desses mesmos cartões já terem varrido muitos dos jogadores em campo. O problema é: “quantas vezes este tipo de reação, a do murro, já não terá passado pela cabeça de muitos dos assistentes aos jogos (para não falar nos presidentes)? Mas o sistema de arbitragem continua sem modificações apreciáveis, refugiando-se nas recomendações do organismo internacional que rege o futebol, a FIFA, deixando de lado o que, em grande parte dos casos, não é técnico mas falha por má decisão. Daí, até se dizer que o árbitro estava aliciado de qualquer maneira, é um passo.
As federações, clubes e os meios de comunicação desportivos deviam reunir-se para uma apreciação serena e profunda deste assunto. As associações de árbitros deveriam também ser mais transparentes nas suas regras, decisões e penalidades. Mas é nesse ”ovo” onde tudo acaba. Já há quem lhe chame o “ovo da serpente”.
As entidades envolvidas nesta indústria (das mais proveitosas que se conhecem) deviam rever os seus procedimentos para evitar cenas como a que recentemente se passou na Turquia. “Ir à bola” deve ser uma atitude de lazer, de prazer familiar e de divertimento saudável.
Já agora, que falamos de árbitros, também seria bom que as mesmas instituições contrariassem o desagradável espetáculo de ver jogadores atirarem-se para o chão, contorcerem-se de dores com esgares de morte iminente para, segundos depois, se levantarem, lampeiros e correrem desalmadamente para tentar marcar mais um golo.
Isto do futebol é, realmente, uma ciência.