O que ando a ler 4

MUSSOLINI Os últimos dias da Europa

De vez em quando, dá-me para estas coisas…! Rever o passado recente, analisando a história da nossa contemporaneidade, sob a luz trémula de uma liberdade que ainda nos vai observando com um olhar de candura. Pelo Natal, o meu neto Guilherme, ofereceu-me um livro que há algum tempo procurava. Acertou em cheio, pois sabia que eu teria interesse em aprofundar factos históricos que se iam apagando da memoria, ocorridos durante a minha meninice e arrastados durante a juventude, agora, tão distante de uma discussão politica alargada, que poucos se aventuravam a ter. Factos históricos que iam marcando as nossas vidas, pelas dificuldades que todos nós também íamos sofrendo, com o racionamento de bens de consumo alimentar, como o pão, o açúcar, a carne, e tantos outros artigos de grande necessidade. O mercado negro, infalível, nestas condições, fazendo as delícias de quem podia ganhar mais uns cobres e a tristeza de quem já sofria antes, sem saber onde ir buscar um pouco mais.
Ingenuamente, os dias pareciam todos iguais, sem agitações, obedecendo a critérios que nos pareciam óbvios, pelo hábito de não pensar. Lentamente, alguma notícia nos trazia a esperança de melhores dias, pelo que se ouvia a boca miúda, entre amigos, ou de jornais e revistas que desenvolviam assuntos vindos de fora, sujeitos a uma censura. A guerra, estava no ponto mais encarniçado, ainda longe de um volte face que diminuísse as pressões e os esforços de guerra.
Eu era ainda garoto e interessava-me pelas notícias. Simples curiosidade, que o medo levava a tomar atenção às conversas dos adultos. As emissões da BBC, que despertavam a curiosidade por notícias sobre os avanços dos aliados, tornavam-nos ansiosos quando o sinal indicava o começo da emissão. O sinal de Morse da letra V, de Victória, inexoravelmente, abria o noticiário, no meio do nosso silêncio espectante : – Ponto, Ponto, Traço! O tema mais retundante da 5ª Sinfonia de Bethoven, fazía-nos respirar mais profundamente, pelo desenrolar dos acontecimentos…! Fernando Pessa, na sua melhor forma de expressão, atirava para o lado de cá, a esperança de um final ainda que longo e sofrido, pelas tropas dos aliados.
Os jornais que passavam lá por casa davam as notícias possíveis, acabando por me atirar para as letras gordas e absorver o que se dizia, ou o pouco do que se ouvia dizer.
Este livro, não sendo uma leitura que me apaixone, levou-me às recordações que pensava estarem ressequidas e esgotadas. Recordações, que começam a saltar, de um passado de tristeza, de desrespeito pela vida dos outros, e de atitudes persecutórias. De destruição e de morte. A recordação, de uma época em que a juventude ficava obrigatoriamente distante, despreocupada, desalinhada com a realidade, não obstante o panorama que via todos os dias pela frente, ao cruzar-me na rua, com refugiados de uma guerra estúpida e inglória que grassava por toda esta Europa.
Mussolini, o ideólogo do Fascismo, como explica este livro,terá desenvolvido a Itália, numa época ainda obscura, em que se potenciava o orgulho do nacionalismo, sobrepondo-se aos direitos humanos. Um final de época, onde já se viam sinais de modernidade noutros pontos do globo, apontando para novas forma de desenvolvimento social e económico, que fez por esquecer e contrariou, a favor da sua vaidade exacerbada. Demasiado tarde, para uma Europa mergulhada em inúmeros problemas sociais e de conservadorismo, saídos do final da 1ª Guerra, à mercê de novos ditadores.
Ao virar da folha do calendário, descobrimos que nada se aprendeu, e muito pouco ou nada ficou, para dar exemplo aos mais novos. Aos nossos filhos e netos, o quanto tudo o que se está passando de novo, em certos pontos do globo, lhes irá custar para as suas vidas…!


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