VOLTOU A CENSURA

Nos idos de 1964 andava eu pelas atividades de “tradutor de legendas de filmes” (de que ainda tenho carteira profissional não utilizada há muito) quando me coube traduzir e legendar o filme “Mary Poppins” com, como se lembrarão, a famosa Julie Andrews.

Naquele tempo havia censura e os filmes com respetivas legendas iam, previamente, a uma comissão de censura que ou aprovava ou reprovava ou introduzia correções diversas (eliminação de imagens ou de legendas). Era assim naqueles tempos que a nossa atual juventude desconhece ou acha caricata. Caricata sempre achei mas tínhamos que ter muito cuidado para não inviabilizar a projeção dos filmes. Os custos eram elevados.

“Mary Poppins” era um filme para crianças e não havia perigos à vista. As legendas foram feitas normalmente e o filme foi enviado para a famosa censura prévia. Com grande surpresa minha e do distribuidor o ofício da censura dizia “cortar imagem entre as legendas 158 e 159”. Imaginem como ainda me lembro dos números das legendas tal o inesperado da situação. Fomos rever o filme para a pequena sala de projeção do distribuidor e não nos apercebemos de qualquer anomalia ou transgressão. Nesse sentido escreveu-se à comissão expondo a nossa dúvida, supondo tratar-se de um engano. A resposta da censura foi bem clara: “Há que cortar a imagem em que o catavento roda por força do vento e aponta para leste”. Havia realmente um catavento no telhado de um almirante reformado mas nunca pensámos que o facto de apontar para leste (o que, no filme, indicava a partida da Mary Poppins pelos ares) pudesse ter uma interpretação tão “comunista”! O distribuidor teve que aceitar, cortou-se essa imagem do catavento e o filme foi exibido com o maior sucesso. Atualmente o filme, quando exibido ou visto no YouTube, tem a versão completa, claro.

Mas eis que, passados todos estes anos, quase 60, o mesmo filme vem de novo à discussão pelo facto de o “British Board of Film Classification” ter agravado a sua exibição, passando-a de “Para todos” para que seja assistido com aprovação parental. E porquê? Por considerarem pejorativo o termo pelo qual é designado um grupo de habitantes que existiram na África do Sul, os Khoikhoi, dos primeiros povos que lá se fixaram. Acresce a isso o facto de, da chaminé do tal almirante reformado, ter saído, quando de uma limpeza de rotina, uma nuvem de fuligem que escureceu as caras das duas crianças protagonistas do filme que brincavam nos telhados com a Mary Poppins. Ora esse escurecimento facial, causado pela fuligem poderá, segundo o tal “Board” de Classificação de Filmes Britânicos, sugerir uma intenção racial descriminatória . E acrescenta o “Board” que, em novas versões, é utilizado o termo “hotentote” que veio substituir o de Khoikhoi que começou a ser usado pelos holandeses que se fixaram naquele território.

Pois é! O que os tempos vêm a descobrir! Coitada da Mary Poppins e das duas crianças à sua guarda que decerto não imaginavam (ou até desconheciam) que existiam povos que se sentiriam ofendidos pelas suas brincadeiras. Estes britânicos, quando lhes dá para dar nas vistas, caem em tal ridículo que até os seus concidadãos se espantam com semelhantes disparates. E o Guardian não lhes perdoa e publica a notícia com todos os salpicos de censura. De uma nova censura que todos conhecemos bem e que se materializa, atualmente, nos mais desencontrados relatos e opiniões generalizadas por este mundo fora. Não é só a censura da Mary Poppins, é toda a outra que nos entra todos os dias pela porta dentro.

Não tenhamos dúvida: a censura voltou.

Um pensamento sobre “VOLTOU A CENSURA

  1. Os censores do Estado dito Novo esqueceram-se de cortar o leste da Rosa dos Ventos!
    Quanto à nova censura às frases de Mary Poppins trata-se dum exagero anti cultural levado ao extremo

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