A Índia é um país que, por razões que oficialmente se lhe reconhecem, merece hoje a atenção do mundo global. Por razões que me são particularmente específicas tenho também pela Índia uma atenção e uma curiosidade especiais.
Estive em Goa, em Dezembro de 1961, quando da invasão ou libertação (conforme os lados que a descrevem) pelas forças militares indianas. Foi um incidente que alterou toda a minha vida sem, no entanto, me criar ódios ou factos que não tivesse progressivamente superado. Os indianos são gente afável, principalmente em cidades mais pequenas onde a confusão das multidões não atrapalha o quotidiano reflexivo e frequentemente místico que envolve toda a sociedade. Encaro, passados todos estes anos, o Dezembro de 61, com a razoabilidade de saber que o culpado do que se passou naquela madrugada (podem ler o relato pormenorizado no livro, publicado há uns anos, “A Última História de Goa”) não estava na Índia mas sim em Lisboa, em S. Bento, com um cobertor sobre os joelhos como era seu hábito.
A Índia é o país mais populoso do mundo, o 7º com maior área geográfica e a democracia mais populosa do mundo. Independente dos ingleses desde 1947 tem, atualmente, uma população com cerca de 1,5 biliões de habitantes.
Tenho bastantes conhecidos e amigos indianos, muitos deles com familiares em Goa que voltei a visitar em 2011, 50 anos depois dos acontecimentos marcantes de 1961.

Pelo facto da Índia não me ser indiferente fui, recentemente, sensibilizado pelo prémio atribuído à escritora Arundhati Roy, não só escritora mas também, e talvez principalmente, ativista política com grande audiência no seu país. Roy ganhou o prémio PEN Pinter duas semanas depois de as autoridades indianas terem aberto caminho para a sua acusação por comentários que fez sobre Caxemira há 14 anos. Este prémio é atribuído anualmente a um escritor que, nas palavras do falecido dramaturgo Harold Pinter, lançou um “olhar inabalável” sobre o mundo e mostrou uma “feroz determinação intelectual para definir a verdade real das nossas vidas e das nossas sociedades”.
Identifiquei-me com esta escritora quando, em 1997, ganhou o prémio Booker com o livro “O Deus das Pequenas Coisas”, onde conta , de forma simples e muito real, as “histórias urgentes de injustiça” espalhadas pelo mundo. Um livro que li há anos e que reli, parcialmente, para relembrar com mais atualidade os realismos das suas descrições. A 14 de Junho, o mais alto funcionário de Delhi sancionou a acusação da escritora com base nas rigorosas leis antiterroristas da Índia, ou seja a Lei das Atividades Ilegais, por causa do comentário que tinha feito há 14 anos sobre o facto de a região de Caxemira nunca ter sido uma “parte integral da Índia”. A partir daí mais de 200 académicos, ativistas e jornalistas indianos apelaram ao governo, em carta aberta, para que a decisão seja retirada e que não haja infração sobre o ponto de vista expresso pela escritora. Roy tem sido uma forte crítica do governo de Narendra Modi, em especial no que respeita às minorias religiosas. Roy deve receber o prémio que lhe foi atribuído na British Library em Outubro, onde o co-vencedor do prémio, “A Writer of Courage” será também anunciado.

“O Deus das Pequenas Coisas” é a história de três gerações de uma família da região de Kerala, no sul da Índia, que se dispersa por todo o mundo e se reencontra na sua terra natal. Uma história feita de pequenos casos, “pequenas coisas” que identificam o mundo nas suas contradições de desigualdades, diferenças, ilegalidades e desrespeito pelas minorias que hoje nos atormentam. Em 2017 Roy publicou um outro livro, “O Ministério da Maior Felicidade” que mereceu também outro prémio ao abrigo das suas defesas em temas de justiça social, questões de degradação ambiental e dos abusos dos direitos humanos.
Araundhati Roy é hoje uma autora e ativista lida e seguida em todo o mundo. Ela bate-se contra as iniquidades existentes no seu enorme país e compara-o com todas as enormes desigualdades que se praticam, diariamente, em todo o mundo.
É uma personalidade mundial com origem num país de enormes desigualdades mas de enorme bonomia entre os seus e para com o mundo. Por isso me obriguei a fazer a introdução do texto, relembrando uma gente que não cultiva ódios nem se opõe à Paz.
Se puderem, leiam Araundhati Roy.
Caro Manuel José, despertaste-me a curiosidade por Araundhati Roy. Depois de ler o que tenho em mãos, vou ver se compro um livro da autora
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