JÁ CHEGOU A TUA ALTURA?

Isto de se viver uns anos largos sempre no mesmo local, na mesma casa, é uma experiência que cada vez se vai perdendo mais. Hoje as casa são simples, apetrechadas com o que é necessário, sumariamente adornadas e, portanto, fáceis de nelas se viver. Foi essa a forma de pensar do Sr. Ikea, há já bastantes anos, e o resultado é o que se vê por todo o mundo: mobiliários simples, apetrechos funcionais, adaptação a um novo estilo de vida.

Pois é, mas isso é relativamente recente. Para as gerações que começaram a viver nas décadas de 60, 70 e 80 do século passado os conceitos caseiros ambientais não eram propriamente esses. Havia mais móveis, mais estantes, mais adornos, mais quadros nas paredes, mais peçazinhas espalhadas pelas prateleiras para enfeitar e criar um ambiente de memorização e de recordações passadas. Esse estilo de vida veio até aos dias de hoje e tem preenchido, silenciosa e docemente, as vidas dos que com elas vivem. Os de mais avançada idade olham, de vez em quando, para fotografias de avós ou pais já desaparecidos e isso dá-lhes algum prazer. A outros nada diz. Um bibelot (prefiro a versão francesa) especial que nos acompanha desde há anos traz-nos à memória pessoas e épocas especiais que, muitas vezes, nos deixam a sonhar durante algum tempo. São esses os encantos de vida, a rotina solitária que nos acompanha sem que nada tenhamos de dizer aos que nos possam rodear.

Mas o problema é quando caímos nas realidades de hoje e, por mor do avançado da vida, nos interrogamos sobre a utilidade ou interesse que aqueles objetos ou livros dos nossos já adiantados dias de vida poderão ter para quem nos venha a suceder ou a beneficiar de todo esse mundo para eles desconhecido e praticamente inútil. É nessa altura que somos atacados pela dúvida de preservar tudo o que nos rodeia ou, talvez mais saudavelmente, começar a eliminar muita dessa “quinquilharia” que não nos vai acompanhar quando chegar a altura de fazermos a “tal viagem”.

Para quem tem muitos livros lidos (e alguns relidos) ao longo da vida, a coisa é mais fácil. Desfazemo-nos deles com facilidade e sem remorso. Não se passa o mesmo com os tais objetos de que falámos atrás, os tais que nos recordam coisas nossas. Mas talvez chegue a altura de os irmos reduzindo progressivamente para que não venham, eles mesmos, a ser desconsiderados por quem nos seguir.

É preciso ter alguma coragem para começar essa empreitada. Já chegou a vossa altura de o fazerem? Eu, por mim, tenho feito pouco, não sei se por sentimentalismo ou falta de coragem.

Mas há-de chegar a altura… Só não sei quando, nem sei se serei eu fazê-lo.

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