O ALGARVE EM QUESTÃO

Não sou algarvio mas, por razões familiares, vivo muito o sentimento algarvio e julgo conhecer bem muitas das suas virtualidades e deficiências. Li, com muito interesse, o artigo de fundo da diretora do único jornal ainda em publicação, Luisa Travassos, que consegue manter o Jornal do Algarve à tona de água com imensas dificuldades financeiras e sem apoios da região, como lhe seriam devidos. Jornal, refira-se, que além de único da região é apenas semanal. Sou assinante há muitos anos e peço a todos os que se interessam pela região que façam o mesmo e ajudem o último farol jornalístico algarvio a sobreviver.

Com a devida vénia transcrevo alguns parágrafos do editorial de 26 de Dezembro de Luísa Travassos, filha do anterior diretor não há muito falecido.

CULTURA EM QUESTÃO

O mesmo Algarve que deu à estampa grandes vultos da cultura portuguesa, transformou-se numa região turística, por excelência, pondo de lado muitas das suas principais tradições.

Descaracterizando-se e, segundo as tendências, começou-se a construir, um pouco por todo o lado, as novas “catedrais de consumo”, os centros comerciais, de fácil acesso e bastante apelativos, o que leva grande parte dos algarvios e residentes a preferi-los em detrimento da oferta realizada por diversas associações culturais, grupos de teatro, museus e bibliotecas, entre outros.

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A propósito da cerimónia de atribuição do Doutoramento Honoris Causa, pela Universidade de Aveiro, a Lídia Jorge, Carlos Albino, distinto colaborador deste jornal, publicava no mural de uma famosa rede social, “chega-se a Aveiro e lamenta-se quanto o Algarve esta recuado. Qual Jornal! Qual diário! Relativamente a todos, todos os intelectuais deste pobre sul. Pobre e empobrecido.”

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Feitas as preliminares considerações, creio que o Algarve intelectual está vivo e isso é visível na sociedade académica, em associações culturais e artísticas, como também na produção literária individual que, aqui e ali, escritores e poetas vão dando a conhecer. Afinal são algarvios Lídia Jorge, António Rosa Mendes, Fernando Cabrita, Nuno Júdice, António Ramos Rosa, Casimiro Brito, António Aleixo, Teixeira Gomes, João Lúcio, entre muitos outros…

Acrescento, por minha conta o nome de José Carlos Barros que, embora nascido em Boticas é licenciado em arquitetura paisagística pela Universidade de Évora e vive no Algarve, em Vila Nova de Cacela. É autor de doze livros de poesia e de três romances. Com um dos mais recentes (As Pessoas invisíveis, Abril de 2022) venceu o prémio LeYa 2021. Não percam o seu livro de poemas “Taludes Instáveis”, de 2024.

Voltemos a Luísa Travassos.

Mas Vitor Cardeira continua: “refiro-me à dificuldade que o Algarve tem em manter jornais regionais, ao invés do que acontece a norte do Tejo e mais próximo do Douro, onde cada cidade tem um jornal diário , enquanto aqui só existe um semanário, o nosso!

O Algarve, com grande tradição jornalística, já viu morrer mais de quarenta títulos. Os seu cronistas envelheceram e são poucos os jovens que refletem sobre os problemas da região, do país e do mundo, escrevendo para jornais, como fizeram os seus pais e avós. Ao invés as redes sociais estão cheias de comentaristas que debitam críticas a tudo e a todos, cujos comentários são lidos apenas pelos seus seguidores.

Esta panorâmica cultural é real e prejudica o real nome do Algarve. Aproveitem as férias no Algarve e procurem as Instituições que por lá proliferam.

E, já agora, se puderem, assinem o Jornal do Algarve. É o único da região mas diz-vos tudo o que é preciso saber sobre ela.

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