Deixou-nos a última das Três Marias, Maria Teresa Horta, com 87 anos de idade. Juntamente com as outras duas Marias (Maria Isabel Barreno, falecida em 2016 e Maria Velho da Costa, falecida em 2020) escreveu um livro que ficou memorável pela audácia do seu texto, “Novas Cartas Portuguesas”, que, claro, antes do 25 de Abril de 1974, foi censurado e proibido. Lembro-me de num livreiro muito discreto, com loja na Av. Almirante Reis, com quem mantinha boas relações , ter comprado (à socapa, claro) esse famoso livro que tanta polémica levantou. A sua venda foi autorizada depois do 25 de Abril, claro, mas as obras das três autoras começaram a divulgar-se e a sobrepor-se às Novas Cartas.
Não conheço as obras das outras Marias mas as de Maria Teresa Horta, não sei por que razões especiais, fui acompanhando à distância. Tenho ideia dos seus muitos livros de poesia e vim a saber que escreveu a Biografia da sua antepassada, Marquesa da Alorna, facto que também desconhecia.
Lembro-me das suas entrevistas a Maria de Lourdes Pintassilgo, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras e Maria Bethânia mas, confesso, sem que as tivesse lido. A sua luta pela liberdade da mulher que espelhou em toda a sua obra deu-lhe uma notoriedade internacional. O seu nome foi muito reconhecido no estrangeiro, principalmente em Inglaterra, tendo sido considerada uma das figuras mais importantes das letras na sua época que agora termina. Sem ser nem sequer conhecedor razoável da sua obra cruzei-me com os seus livros “Espelho Inicial” de 1960 e “Minha Senhora de Mim” de 1961.
O acaso fez com que em 1963 a visse (a única vez) no Cinema Império. Nessa época, uma das minhas ocupações era a de tradutor de legendas de filmes e, nessa condição, legendei um filme clássico cujas legendas localizei e gravei (como se fazia na altura) num laboratório em Alvalade que pertencia ao engenheiro Gil que era também o concessionário do cinema Império. Para esse filme, protagonizado por Dan Dureya , cujo nome em português foi “David e Lisa”, o Eng. Gil publicou um concurso para receber críticas sobre ele, com prémios monetários. Como conhecia bem o filme escrevi um texto que submeti a concurso, mas com o nome da minha mulher, por razões óbvias. Na sessão de entrega dos prémios (para a qual tínhamos sido notificados) estivemos presentes por sabermos que nos tinha sido atribuído o 2º premio. E quem ganhou o 1º prémio? Maria Teresa Horta, claro, que o foi receber ao palco com uma salva de palmas. O 2º Prémio também foi entregue, mas com apenas umas palmas de circunstância. Mas foram, no entanto, mil escudos que, à data, nos fizeram imenso jeito.
Foi dessa vez que vi Maria Teresa Horta, a pudemos cumprimentar, para agora, com a sua morte, me vir a lembrar dela e deste pequeno incidente tão simpático.