SNS, CONSULTAS EXTERNAS

Tanto se fala no SNS que hoje não resisti a transcrever um poema de Nuno Júdice, nascido na Mexilhoeira Grande (Algarve) em 1949 e falecido em 2024. Foi um notável homem de letras e por isso conseguiu escrever isto:

SNS, CONSULTAS EXTERNAS

As pessoas irritam-se por tudo

E por nada. O homem vinha de fora da cidade, horas

Para cá, e horas para lá. E gritava com

O empregado, como se a hora de chamada dependesse dele.

Podia estar sentado, a pensar

Na vida, no tempo que demorou a chegar, e no tempo

Que ia perder no regresso, mas não. Angustiava-se

Porque não o atendiam à hora devida; em vez de estar quieto,

A olhar para os outros que esperavam, como ele.

Gritava para o empregado, e não deixava descansar

Os ouvidos de quem, como ele, esperava

Pelo seu número. Por isso não ouviu

Que o chamavam, e continuava a protestar quando,

Julgando ouvir o meu número, entrei no gabinete

Onde o médico, sem me olhar, abriu o computador e disse

Um outro nome, talvez o do homem que gritava. Podia ter-lhe dito

Que era o meu heterónimo, mas ele corrigiu o equívoco

Antes que eu lhe desse o meu nome. Quando saí, alguém avisava:

“Agradeço que não falem para que ninguém

Falte à chamada”. Tarde demais para o homem que vinha

De fora, e me tinha dado a sua vez.

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