Isto de dar a volta às gavetas e papelada antiga é o que dá: encontrar preciosidades que a memória não esqueceu mas cujos paradeiros nos escaparam.
Aqui ficam dois exemplos com os quais tive o prazer de conviver recentemente.
O primeiro tem a ver com um colega meu do Liceu Passos Manuel (que frequentei desde 1947 até 1954) que ficou célebre pelo seu trabalho como poeta, escritor, tradutor e Técnico da Biblioteca Nacional de Portugal. José Carlos Gonzalez era o seu nome. Nasceu em Lisboa, em 1937, filhos de emigrantes galegos e iniciou a sua carreira poética com a publicação em 1957 da obra Poemas da Noite Nova que se tornou a sua obra de referência. Estudou Direito em Lisboa e Românicas e Ciências Políticas na Sorbonne em Paris onde também trabalhou como secretário dos herdeiros de Albert Camus. Muitos outros trabalhos deixou ao longo da sua vida, partindo mais tarde para França, para a Bretanha, passando a viver na cidade de Douarnenez, Departamento de Kerlaz. Foi lá que morreu no ano 2000, com 63 anos.
Tudo isto vem a propósito de um jantar que realizámos em 27 de outubro de 1992, evocando o 40º aniversário do exame do nosso 5º ano do Liceu Passos Manuel. Nessa ocasião o Gonzalez (como abreviadamente lhe chamávamos) escreveu e ofereceu-nos este soneto:
Passaram quarenta anos
E tantas coisas passaram.
Enganos e desenganos
Se perderam ou ganharam.
Foi um tempo de sonhar
E outro de desespero .
Houve o quero e o não quero
O esquecer e o recordar.
Passaram quarenta ventos,
Correram quarenta rios
Todos para o mesmo mar.
E de passarem navios,
Navegar e naufragar,
Só restam os sentimentos.
O outro poema que reencontrei é da autoria de Sebastião da Gama e foi-me oferecido por uma Amiga depois de um acto eleitoral no qual eu não tinha sido bem sucedido (acontece…). Aqui fica.
Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
Pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria
Ao que desconhecemos
E ao que é o dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
Partimos. Vamos. Somos.
Desculpem este tempo de poesia.