UM MONSTRO NA NOSSA CASA

São inumeráveis os casos de violência doméstica por toda a parte, no nosso país e por todo o mundo. Violência doméstica é crime mas nem sempre é motivo de julgamento, castigo ou até de conhecimento público. As vítimas, na sua maioria mulheres, retraem-se, envergonham-se e não denunciam. Cada vez mais as instâncias jurídicas e policiais de todo o mundo estimulam as denúncias desses casos mas o aumento das queixas, embora crescendo, tem sido relativamente reduzido.

Até que, recentemente, um caso desses explodiu em França e foi relatado nos meios de comunicação social. Mas com a velocidade da vida e o fluir desmesurado de acontecimentos, essas notícias são efémeras e perdem, rapidamente, a atenção que lhes devia ser dedicada. Achei, no entanto, que este caso, que ganhou visibilidade e a atenção em muitos países, merecia uma atenção especial para que talvez possa servir de alerta e de atenção para os “monstros que vivem em certas casas”. Trata-se do caso de Gisèle Pelicot e do seu marido Dominique Pelicot.

A filha do casal, Caroline Darian, iniciou há quatro anos uma nova luta na sua existência.

Caroline Darian

Caroline é filha da vítima, Gisèle e do criminoso, o marido de Gisèle e seu pai, Dominique Pelicot. Ela descobriu e revelou agora no seu livro “Deixei de te Chamar Papá” (publicado em Portugal, em 11 de Fevereiro, pela editora Guerra e Paz) que durante pelo menos uma década, Dominique drogou a mulher com fortes sedativos para depois a violar e convidar homens desconhecidos que recrutava na internet a fazerem o mesmo. Carolina decidiu levar o caso a julgamento público de forma a denunciar um dos maiores predadores sexuais dos últimos anos. Fundou também a Associação #MendorsPas com o objetivo de lutar por um melhor tratamento das vítimas de submissão química, como aconteceu com a sua mãe, e pela formação dos profissionais de saúde para reconhecer este crime.

As agressões sexuais contra Gisèle Pelicot ocorreram desde, pelo menos, Setembro de 2013, data das primeiras imagens que os investigadores extraíram dos vários dispositivos eletrónicos de Dominique. No total, a polícia conseguiu identificar 50 agressores, mas terão sido mais de 70 os homens que abusaram de Gisèle com o consentimento do marido. Têm idades compreendidas entre os 22 e os 71 anos e são oriundos de todos os setores sociais: estudantes, reformados, um jornalista.

O mais difícil para Caroline foi ter de se sentar ao lado destes homens, separados apenas por algumas cadeiras, durante semanas a fio, durante o julgamento. Nas trocas de mensagens com os homens que convidava para sua casa para violar a mulher, Dominique vangloria-se da potência do seu cocktail de ansiolíticos e dava orgulhosamente as instruções de como o fazer, especificando as doses exatas a usar e o número de comprimidos a diluir com alimentos ou álcool. Este com- portamento monstruoso foi descoberto, julgado e punido.

O caso reveste-se de pormenores sórdidos que o livro de Caroline descreve. Quem os quiser ler ou conhecer poderá comprar o livro.

Por mim, a monstruosidade é tanta e tão repelente que só me apeteceria fazer justiça com as próprias mãos. O que, claro, não vai acontecer nem nunca aconteceria em casos que estarão mais próximos de nós. Mas que enojam, enojam!

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