DUAS CITAÇÕES

Vou hoje, com duas vénias, “roubar” dois pequenos textos que vieram recentemente publicados. Um no “ Jornal do Algarve”, outro no “Diário de Notícias”.

O do Jornal do Algarve é da autoria da escritora Lídia Jorge, nacional e internacionalmente conhecida, com imensos e importantes prémios atribuídos e, além disso, membro do Conselho de Estado. Diz ela:

Creio que terá sido em 2010 que o então Primeiro Ministro do Reino Unido terá dito alguma coisa que poderá ser traduzida da seguinte forma – “Agora, o que está perto fica longe.” Nada muito a acrescentar à ideia de Aldeia Global dos longínquos anos sessenta entretanto interiorizada pelas sociedades do mundo inteiro. No entanto, nunca como hoje as palavras síntese de Gordon Brown foram tão certeiras. Acabo de almoçar junto de pessoas da construção civil, e os comentários sobre o que aconteceu na Sala Oval da Casa Branca em Washington na passada sexta-feira, dia 28 de Fevereiro, estava a ser discutido com pormenor e paixão como se a cena macabra que lá decorreu tivesse acontecido aqui, na praça ao lado. O que demonstra que aquilo que vier a acontecer daí decorrente, terá repercussão na vida de todos nós. … No centro do mundo que julgamos o mais civilizado e global, acontecem cenas de bas-fond do mais primitivo que há: descompor o hóspede, difamar o convidado, criar uma emboscada, filmá-la em direto para o mundo inteiro como qualquer influencer faz ao registar e gabar-se das suas cenas de caça ao homem. Temos de perceber que vivemos um momento de viragem que nos toca a todos, estejamos onde estivermos. Mas será necessário caminhar com cuidado porque o modelo Trump, vencedor absoluto pelo recurso ao que de pior a conflitualidade humana tem, está presente em todas as vitrines do nosso mundo. Apetece repetir o que Maria Teresa Horta escreveu: “De mim, / afinal, o que / quereis? /Porque eu, /senhor poeta, / de mim / pretendo tudo”.

A segunda vénia vai para o texto de Aline Hall Beuvink, Professora auxiliar da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora do CIDEHUS. Diz ela:

Um fogo aqui tão próximo, em questões da mais variada ordem – democracia em risco, interferência alheia, jogos internacionais a dominarem as linhas nacionais – e os portugueses discutem se o primeiro-ministro deve ou não passar com a toalha de banho entre os gabinetes no Palácio de S. Bento, porque não pode ir dormir para um hotel!”

Claro que o que se passou ontem na Assembleia da República foi, no seu todo, muito mais grave que a cena da toalha. As cenas de “jogo de roleta”, de pequenas e grandes chantagens orais, de desconformidade em muitas das intervenções, leva-nos a pensar na mediocridade em que estamos enterrados e intuir que, se calhar, mesmo com novas eleições depois da queda deste governo, tudo continuará por esclarecer.

“Alea jacta est” como disse Julio César ao atravessar o Rubicão (em 49 AC) percebendo que não havia saída para que rebentasse a guerra civil em Roma.

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