A FEIRA DA LADRA MUNDIAL

Todos nós conhecemos a Feira da Ladra. Há anos ia lá de quando em quando, ou para encontrar qualquer coisa em segunda mão que me interessasse ou, a maior parte das vezes, apenas para dar um passeio.

A Feira da Ladra é uma feira popular de objetos usados que tem lugar em Lisboa desde o século XIII (imagine-se) e que se fixou no Campo se Santa Clara, na freguesia de S. Vicente. Às vezes perguntava-se o preço de um objeto e a resposta era exorbitante. Já sabíamos que era assim. Oferecíamos metade desse preço ou ainda menos e a coisa acabava por se compor, mais tostão menos tostão (era a moeda, o famosos escudo, que se usava quando eu lá ia). Tem lugar às terças e sábados até meio da tarde. Ainda hoje suponho que é assim. As bancas eram ocupadas por famílias que pagavam licenças camarárias significativas e que, portanto, tinham que fazer negócio. Mas o certo é que ninguém largava a sua banca que ainda lá deve permanecer com os descendentes ou por transferência, bem remunerada, do negócio.

A Feira da Ladra

É uma feira muito mais familiar e popular do que, por exemplo, o famoso mercado de Istambul, onde o roubo dos preços é muito superior, os artigos são mais sofisticados e, na maior parte das vezes, o vendedor dizia que tinha um “primo” em Portugal, depois de, durante a conversa, saber a nossa nacionalidade.

Mercado de Istambul

São assim os mercadejares urbanos, turísticos, inofensivos mas que, apesar de tudo, completam um pouco a nossa cultura de vida. Não faz mal lá ir. Ou se sai sem nada ou se traz uma recordação por preço acessível.

Vem isto tudo a propósito de quê? Surgiu-me como exemplo de como as autocracias do mundo tentam “negociar” aquilo que não lhes pertence, em países independentes e que protegem soberanamente os seus territórios. Claro que estas pequena alusões às feiras tem, subjacente, o impróprio e abusivo comportamento de figuras mundiais como Donald Trump ou o agora quase seu amigo Putin. Trump quer ficar com o Canadá, porque lhe dá jeito, mas o novo primeiro-ministro do Canadá que sabe mais a dormir que Trump acordado já disse que essa questão das tarifas vai ser prejudicial para o EU. Nos supermercados do Canadá já há sinais nas prateleiras para indicar quais são os produtos de origem canadiana, ao que as populações reagiram facilmente deixando de comprar americano. Uma ex-famosa marca de whiskey americano já abriu falência e fechou. Parece que Trump pensa também decretar uma tarifa de 25% para os automóveis importados da Europa, exceto para os que sejam fabricados nos EU. Costumam ver muitos carros americanos na Europa? Como vão viver os americanos sem os BMW, Mercedes, Fiat, Renault, Volvos e quejandos?

Para Trump as longitudes e latitudes do mundo para ele não contam. A sua visão é a de um planeta plano onde ele pode fazer os negócios que quiser. Goldberg, diretor da revista The Atlantic , lembra que em 2020 Trump disse “que militares mortos em combate” eram uns “falhados””, e que em 2024 afirmou que “precisava do género de generais que Hitler tinha“. Pensamento digno e indiscutível de um ditador.

Os minerais da Ucrânia seriam uma boa moeda de troca para negociar a paz naquele país com Putin. Isto sem Zelensky nada saber,. Bem como a cedência das terras já ocupadas pela Rússia para a sua posse definitiva. Para ele tudo se pode mercadejar como, por exemplo, toda a faixa de Gaza que ele transformaria numa nova Riviera turística. É este o espírito de “mestre de obras”, apoiado por milhões de dólares oriundos de autocratas americanos, que Trump quer ver progredir no mundo. Mas sem discussão, como se passa na Feira da Ladra ou na de Istambul.

Os chineses, sempre muitos atentos e nunca com pressa, vão avançando com o seu tapete comercial compensando os dislates do americano.

Este tema poderia prolongar-se por muito mais tempo, mas não vale a pena. Esperemos que o sobressalto europeu causado por estes ataques em massa, lhe tenha servido de “despertador” para o que não tem feito e deverá passar a fazer. Tecnologia e saber de ponta não lhe falta e já se fala em que os americanos mais dotados poderão ser convidados a vir para a Europa onde encontrarão meios de desenvolvimento e investigação que, entretanto, têm sido desmoronados nos EU.

O mundo está atento. Assim espero.

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