TEM UM ELEVADOR À MÃO?

Nós últimos tempos temos sido assoberbados nos noticiários pela enormidade de grávidas e de recém-nascidos mas, principalmente com grávidas. As estatísticas ainda não nos vieram esclarecer se o número de nascimentos em Portugal tem aumentado drasticamente mas, tanto quanto as nossas vidas nos permitem olhar à volta, não se tem essa sensação.

No entanto não há dia que os noticiários televisivos não nos exibam senhoras com enormes e redondíssimas barrigas perguntando para onde hão-de ir. Sim, é uma pergunta espantosa mas a resposta pareceria normal: vá para a maternidade. Engano. A pobre grávida já telefonou para diversos hospitais da sua área de residência e dizem-lhe que estão fechados. A coisa agora é mais moderna: só alguns hospitais recebem grávidas de urgência, depois de ligarem para um sistema novo, SOS24 se não me engano, através do qual um ou uma enfermeira diplomada lhe põe um conjunto de questões para aferir da real urgência da senhora. Depende dos dias, mas muitas vezes a parturiente tem que se deslocar mais de uma centena de quilómetros para ser atendida e, se chegar a tempo, ter o seu bébé em condições clínicas corretas.

Há muitos anos havia partos que tinham lugar nas casas das pessoas, com a assistência de uma parteira acreditada que sabia o que fazia. Isso hoje, naturalmente, já não acontece. Pode, no entanto, acontecer é, se a senhora se atrasar no tal percurso quilométrico, a criança nasça no elevador do hospital, com aconteceu num destes dias. A mãe e a criança ficaram bem e, quando o elevador chegou ao piso de obstetrícia os cuidados foram imediatos e de boa qualidade. Para não falar nos casos mais frequentes que são os nascimentos terem lugar nas ambulâncias do INEM quando se dirigem para os hospitais ( se for no helicóptero é muito mais elegante para a criança…)

Médicos e enfermeiros, entrevistados nas televisões, dizem que as coisas estão a melhorar e que os serviços dos que são entrevistados funcionou impecavelmente . Mas o que eles não dizem é que há, nesse momento, uma escassez enorme de hospitais abertos e que, portanto, os “circuitos” de parturientes por todo o país podem bem comparar-se a um rali automóvel. Tenho uma familiar que trabalha na obstetrícia de um hospital de Lisboa que recebe quase tudo o que lá chega. Há fins de turno em que ela perde de memória o número de partos a que assistiu durante esse dia. A Maternidade Alfredo da Costa (pública) diminui, recentemente, os atendimentos de urgência mas, em contrapartida aumentou bastante o número de casos que lhes enviam de outras unidades que estão encerradas.

Depois das crianças nascerem aparecem, com frequência, a mãe ou o pai do nascituro com ele ao colo dizendo que tudo correu muito bem. Não falam, claro, do circuito sinuoso que percorreram até ali chegarem. Não, o nosso competentíssimo SNS está, neste tema, desprotegido e muito mal organizado. Pode ser que me engane mas o Ministério responsável tem-se atropelado a si próprio neste algoritmo que não soube resolver. Com o beneplácito discreto do sistema de saúde privado que, para quem pode, é a salvação imediata da uma grávida urgente que não queira ter o seu filho num elevador hospitalar. Mas custa dinheiro…

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