CARLOS MATOS GOMES

Conheci pessoalmente Carlos Matos Gomes na década de 1999/2000. Eu na qualidade de oficial da Armada reintegrado após o 25 de Abril de 1974, depois da demissão a que fui sujeito em 1963, após os acontecimentos da Índia de Dezembro de 1961 e por vontade expressa do ditador que governava o país. A fama de Matos Gomes era já consagrada. Foi um dos capitães de Abril que devolveram a democracia a Portugal e pertencia a um grupo culto de novos militares que souberam apoiar e suportar os novos responsáveis e presidentes emanados desse tão famoso 25 de Abril.

Carlos Matos Gomes

Tudo isto vem a propósito do seu recente falecimento (domingo passado) de que vim a tomar conhecimento por comunicações de sua filha. Não sabia do seu último período adoentado de vida pelo que não lhe fiz nenhuma visita como, naturalmente, me teria competido.

Nesta fase infeliz mas tão marcante, as amizades suscitam-nos recordações e vénias morais a quem tão bem soube viver a sua condição militar e humana quando, à nossa volta, campeiam e emergem condições éticas opostas às que um Homem de bem como Matos Gomes sempre soube defender.

Carlos Matos Gomes , com uma juventude rebelde (talvez insatisfeito e inconformado) acabou por encontrar nas Forças Armadas (no Exército, no seu caso) o ambiente de ordem e liberdade que se compaginavam com a sua maneira de ser e forma de ver o mundo nos tempos difíceis de uma polícia política que se insinuava por toda a parte. Acabou por vir a ser um sábio escritor cujos escritos sempre souberam condenar e opor-se ao regime que, antes do 25 de Abril, a todos transportou para a guerra colonial. Uma guerra sem objetivos, sem saída, sem glória . Só Salazar não se apercebia dessa inevitabilidade histórica e mandava, sem escrúpulos, no recato da sua cadeira de S. Bento, morrer os militares a quem não eram dadas condições de combate ou de objetivo militar saudável.

Matos Gomes escreveu uma séria de livros que fui agora rebuscar às minhas estantes. Escrevia-os com o pseudónimo de Carlos Vaz Ferraz e, não sabendo se os tenho todos, aqui deixo, com a devida vénia, alguns dos títulos que preservei (não forçosamente por ordem cronológica ): SOLDADÓ, FALA-ME DE ÁFRICA, BASTA-ME VIVER, A MULHER DO LEGIONÁRIO, A ESTRADA DOS SILÊNCIOS, O GÉMEO DE OMPANDA E QUE FAZER CONTIGO, PÁ?

De todos os escritos que deixou aquele que mais profundamente me tocou, e que guardo com desvelo, foi o seu texto de apresentação do meu livro “NRP Sirius – Índia, 18 de Dezembro de 1961 – Três casos de Marinha”. O texto é longo e dele extraio apenas algumas passagens que identificam bem o caso relatado com as condições políticas da época. Escreveu ele:

O livro revela-nos um facto ocorrido durante a invasão de Goa pela União Indiana e ocultado durante todos estes anos. Mas, mais do que uma seca revelação do afundamento de um navio de guerra da Armada Portuguesa pelo seu comandante, estamos perante uma tensa e apaixonante conjugação do relato de acontecimentos decisivos na História do século XX de Portugal com os dramas pessoais vividos por alguns dos seus membros colocados numa situação de conflito essencial. Este foi o caso de Marques da Silva, mobilizado para a Índia, nas vésperas da invasão, para comandar a pequena lancha de fiscalização Sirius, como foi o caso de Fausto Brito e Abreu, comandante da lancha Antares e de Oliveira e Carmo com a lancha Vega em Diu. Não existia aviação e a defesa anti-aérea de Goa resumia-se a duas peças de 20 mm, operadas por guarnições de artilharia de campanha. Foi com esta desproporcionada força que os comandantes das lanchas receberam a seguinte ordem do Comando Naval: “No caso de ataque armado por parte da União Indiana persistir até ao fim. Em caso de situação completamente perdida afundar o navio. Rendição absolutamente intolerável. Espera-se da Marinha honroso comportamento como é seu timbre”.

Está foi a última ordem recebida a bordo da lancha Sirius. A ordem que os comandantes dos navios receberam é ilegítima e criminosa. As forças portuguesas, colocadas numa proporção de potencial relativo de combate de 1 para 10, não podiam resistir e, como a ordem impedia a rendição, estavam condenadas ao massacre.

Incapaz de compreender a realidade e, ainda menos, de a aceitar, Salazar passa do desespero à insensatez. Sentado à sua secretária da casa de S. Bento, com a manta de lã a proteger-lhe os joelhos dos frios de Dezembro, os pés junto à braseira, envia a ordem à guarnição militar da Índia que oferecesse resistência até ao “sacrifício total”. É aqui que encontramos de novo os jovens comandantes das lanchas da Índia. Eles carregam sobre si todo o peso da condição militar. É o momento decisivo, sem arabescos literários, é o momento da vida e da morte. Em Diu, Oliveira e Carmo é atacado e morre em combate. Em Damão, Brito e Abreu vê as chamas na cidade e decide partir para Karachi com a sua lancha nos limites mínimos das capacidades de combustível. Em Goa, Marques da Silva, depois de afundado o Afonso de Albuquerque, decide abrir as válvulas de fundo do seu navio e afundá-lo contra as rochas de Dona Paula. Através deste livro incomum, misto de memória individual e de história coletiva, somos informados do que se passava com os militares portugueses através da primorosas cartas para a mulher do tenente Vitor Marques Pedroso, oficial do Afonso de Albuquerque, em que relata a tristeza, as dificuldades, as ansiedades dos prisioneiros de Pondá para onde os indianos haviam conduzido parte dos militares portugueses como prisioneiros de guerra. Por seu lado, Marques da Silva regressa de avião a Lisboa, vindo de Karachi. É conduzido num carro da PIDE, que o espera no aeroporto, ao Ministério da Marinha e apresenta-se ao ministro, o almirante Quintanilha de Mendonça Dias, que não encontra melhor forma do que repreendê-lo pelo modo como está vestido: com roupa dada no Paquistão. Podemos imaginar a raiva do jovem tenente, as lágrimas que deve ter sufocado perante a insensibilidade daquele homem que era o seu chefe, após uma tão longa viagem. Salazar não se coibiu de expulsar dez oficiais, a começar pelo governador Vassalo e Silva, com punições decididas de forma encoberta, sem julgamento, através de processos disciplinares.

A importância deste livro de Marques da Silva é trazer ao nosso presente o momento em que começa a construir-se o presente em que vivemos hoje. A Índia marcou a ruptura da Instituição Militar com o regime e essa fractura atravessará como um fantasma toda a guerra colonial até desembocar no 25 de de Abril.

Este livro é um sublime exemplo de dignidade. O que está neste livro é a luta de um homem pela sua dignidade como militar. Foi expulso das Forças Armadas que ele tinha escolhido como opção de vida. Ele teve sucesso na sua nova situação à custa do seu esforço e do apoio da sua mulher e dos seus filhos. Foi tradutor, formou-se em engenharia, atingiu altos cargos como dirigente desportivo, mas este homem, que podia ser lamuriento, que podia ser acusador, que podia desprezar as forças armadas e a Armada, dá-nos, com este livro, o admirável exemplo do lutador pela sua dignidade militar. Foi reintegrado na Armada após o 25 de Abril.

Como poderão perceber a perda de Carlos Matos Gomes deixa, para mim e muitos outros , um rasto de saudade e respeito. Paz à Sua Alma.

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