TEATROS AMADORES

Há, por todo o país, um número enorme, cuja estatística desconheço, de teatros amadores que preenchem as vidas de muitos cidadãos que, não tendo nunca entrado na vida profissional do teatro, encontram nesta atividade, de forma amadora e para além das suas ocupações normais, uma forma de se realizarem e de conviverem com muitos outros que amam o teatro e o encaram, apenas, como um enriquecimento da vida.

Os públicos respondem a estas manifestações e, de uma forma geral, as salas enchem-se de gente que se distrai, que aprecia o teatro, seja ele amador ou profissional. Não será difícil de admitir que a oferta de teatro profissional em Portugal é muito escassa. A tal digitalização e a facilidade enorme de acesso imediato a conteúdos filmados retirou o publico das salas. Até as salas de cinema se ressentem desse fenómeno. O público espera que os filmes ou as peças teatrais saiam dos seus ambientes originais para os ver, comodamente, nos sofás das suas casas. Bons produtores e encenadores teatrais que existem em Portugal têm debandado para outros países para exercerem as suas artes, países ou locais onde este tipo de espetáculo ainda não perdeu a dignidade do seu “múnus” e continua, quase de forma escolástica, a manter uma paixão que diversas gerações ainda acarinham.

O teatro amador preserva esse fascínio em declínio e luta, de forma denodada, para manter essa reserva de cultura que, não esqueçamos, é das mais antigas que as sociedades criaram em todo o mundo. Ainda hoje uma peça teatral que esteja a ser exibida em Londres, Paris ou Nova York, obriga-nos a comprar bilhetes com meses de antecedência. O teatro em Portugal ficou em coma letárgico. Daí a razão pela qual aumenta a nossa admiração pelo teatro amador e pela cultura que ele consegue preservar.

Existe em Lisboa uma organização com o nome de “teatroàparte” que, com diversos encenadores, tem conseguido manter uma atividade notável ao longo dos anos , não deixando estiolar esta forma de arte tão direta e pessoal. É um pouco como a ópera, espetáculo que, em Portugal, só se consegue ver na Gulbenkian , em retransmissões do MET de Nova York.

Mas não nos desviemos. Está em palco, atualmente, no Auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro (municipal), uma peça de Nikolai Gogol, com o título “O Inspetor Geral”.

A folha de Sala

O “teatroàparte” já pôs em cena, desde 1998, 30 peças teatrais, todas desempenhados por grupos amadores.

Fui assistir a esta peça de Gogol. Tinha em palco gente minha conhecida, amadora, como seria o caso de praticamente toda a gente que encheu a plateia. Os amigos e familiares apreciam estas iniciativas e comparecem. Esta peça de Nikolai Gogol é bem conhecida e recupera a vida numa pequena cidade de província do império russo oitocentista em que o governador local recebe uma carta a anunciar a visita iminente de um inspetor geral. As peripécias são muitas e a peça é divertida, para os espectadores e para os intérpretes em cena, todos amadores. O “Inspetor Geral” é uma peça criada em 1836 e é, no fundo, uma comédia de costumes que mantém certa atualidade.

Vale a pena ir ver estes amadores e apoiá-los nestas suas aventuras de entretenimento. Para eles e para nós. E sempre vamos vendo caras conhecidas…

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