No Jornal de Notícias de 17/7/2025 o escritor Luis Osório escreveu um artigo que nos deve merecer a maior atenção. Talvez nem todos o tenham lido e por essa razão faço aqui a sua transcrição, com a devida vénia, salvaguardando, com todo o rigor, os direitos da sua autoria.
Luis Osório dá ao seu artigo o título de “A Prova da existência de Deus”.
Segue o texto que transcrevo:
Há em Nick Cave qualquer coisa de transcendente. Ouvir as suas canções é uma celebração de vida com a morte presente, um grito de esperança carregado de tristeza, uma redenção sem redenção possível. A morte de dois filhos demasiado jovens, o peso da culpa por não os ter resgatado, transformou o cantor australiano num exorcista das dores e de pecados de um mundo que o venera. Em “The Red Hand Files” , espaço em que responde a perguntas, li-o ontem como se estivesse numa missa de letras mágicas. Escreveu sobre o sofrimento, do que faz para o tornar mais leve, do modo como uma tragédia pode ser um elemento da criação. Alguém o confrontou com a possibilidade de ajustar contas com o Céu. Cave escreveu então sobre o seu Deus que é amor, mas também suplício. Que é paz , mas também guerra. Que é luz, mas também o mais profundo buraco negro. Fiquei a pensar. E continuo à procura de respostas. Onde está Deus nos lugares onde crianças são bombardeadas,humilhadas, traumatizadas? Onde está Deus na ignomínia e no horror? Onde está nos rios de sangue, na terra queimada, na morte de um filho? Penso que a resposta é óbvia, está lá. Só pode estar. Se não estivesse, seria Deus? Mas que razão poderosa tem para que tantos milhões sofram tanto? Para que tantos tenham fome e sede? Se soubéssemos a resposta, Deus não seria Deus. Habitaria apenas dentro da nossa cabeça, não fora dela. A esperança que tenho que exista é precisamente o que “Nele” não consigo entender – a começar pelo sofrimento.
Quem ainda não tenha lido talvez valha a pena meditar.