Ana Paula Tavares é uma poetisa (agora diz-se só poeta) , historiadora e antropóloga angolana a quem foi atribuído o mais recente Prémio Camões da Língua Portuguesa . Escreveu ela, no seu maravilhoso português, (e aqui cito uma referência de Guilherme de Oliveira Martins):
“Os contadores de histórias do meu país sabem como usar as suas línguas maternas para realizarem as tarefas de Deus, a transmutação do corpo em voz, e uma vez voz, repetir o murmúrio da tradição que assim se fortalece e se transforma em pedra de tanto durar… Assim se acumulam notícias e cresce o espanto, que a língua tem dessas armadilhas: amortece a queda, cuida dos viventes , ensinando a conviver com as notícias deste danado tempo dos anos da peste”.

Nasceu no planalto de Huíla e aí se fascinou pela região e pela sua vida. Aí foi a sua primeira casa a dois mil metros de altitude, onde o olhar se perdia na distância do horizonte, limitado pela serra. E escreve ainda: “Os livros, as estações do ano, as chuvas e as palavras jazem esquecidas nos baús da memória. Ninguém sabe como ou porquê tal fenómeno acontece e dele só damos conta quando de repente, assim de manso, um acontecimento, uma moda, um ato de vontade, traz à superfície de muitas turvas águas a palavra, o cheiro da terra molhada, as goiabas penetrando os poros, saturadas de cheiro, o silêncio breve de uma igreja vazia, o doce calor de uma vela acesa. As línguas francas, próprias ou alugadas, estão cheias desses enigmáticos recursos e engordam à custa de vocábulos repescados, esquecidos, retomados outra vez”. E, lembrando Mia Couto, diz-nos, no fundo de si: “Há que celebrar a viagem a empreender dentro de nós.”
É extraordinário como a língua portuguesa se mantém pelos quatro cantos do mundo. Premiar Ana Paula Tavares com o Prémio Camões é uma prova de reconhecimento histórico, cultural e intelectual de que a língua cimenta amizades eternas. Teria sido bom que o Presidente angolano tivesse presente as palavras de Ana Paula Tavares antes de proferir o seu último discurso quando da visita do Presidente de Portugal a Angola.
Emociono-me, como a sonoridade da lingua portuguêsa, ainda flui entre os ventos esquecidos de África…! Os cheiros penetrantes dos cafeeiros em flor, das goiabas, das mangas, e das persistentes queimadas, que as brisas húmidas do cacimbo evidencíam, dando mais contraste às acácias, e da magestosa imagem dos imbondeiros…!
As gentílicas gentes, que pronunciam o português, num queixoso ondulado , dando-lhe outra forma de vida e sensibilidade, tornando-o apetecível de ouvir, como acontece no Brasil, ou em terras de Angola e Moçambique…! Do crioulo, de onde sobressaiem palavras soltas de sabor português, a enriquecer a língua nativa. Ou o contrário, dando maior forma ao nosso léxico, autênticando velhas passagens por tantos desses horizontes…!
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