AINDA SE LEMBRAM DO FRANQUISMO?

Um realizador espanhol, Almuneda Carracedo, está a reunir elementos para o filme que pretende realizar sobre a vida de Francisco Franco, o tremendo ditador espanhol do século passado que viveu na mesma época do nosso tão odiado Salazar.

Quando morreu, e por sua decisão , foi sepultado no Vale dos Caídos , monumento sinistro, destinado a todos os que tinham sido mortos (assassinados) por gente comandada por Franco. O Vale dos Caídos (hoje conhecido por Vale de Cuelgamuros) fica a cerca de 50 km de Madrid, na serra de Guadarrama, perto de San Lorenzo de El Escorial.

Seis anos após o seu enterro naquele grotesco espaço, os dirigentes da nova democracia espanhola desenterram-no desse local e levaram-no de helicóptero até ao cemitério de Mingorrubio, onde ficou sepultado, não por coincidência, ao pé de grandes amigos e colaboradores seus como Luis Carrero Blanco que morreu na explosão do seu carro em 1973. Também aí se encontram o ditador dominicano Rafael Trujillo e Carlos Árias Navarro, conhecido como o “Matador de Málaga” devido às brutais execuções que realizou durante a guerra civil. Árias pronunciou-se, num programa de televisão espanhola dizendo, quando Franco morreu: “Espanhóis, Franco morreu. O homem excecional que, perante Deus e a História, assumiu a imensa responsabilidade de servir a Espanha, deu a sua vida no cumprimento de uma missão transcendental”.

Francisco Franco

E é agora, no século XXI, que aparece de novo o Partido do Nacional Catolicismo para comemorar o 50º aniversário da morte do ditador.

A extrema direita espanhola tem tentado relembrar a imagem de Franco, incluindo cerimónias públicas junto ao seu túmulo.

A saudação nazi na atualidade
O túmulo de Franco

O homem que mandou matar milhares de pessoas que eram contra o seu regime não é, no entanto, recordado, segundo as estatísticas, por 24 a 25% das pessoas entre os 18 e os 35 anos que dizem não se lembrar de viver sob um regime autoritário e, curiosamente, não saberem o que se passou antes deles. Alguns professores espanhóis dizem que os estudantes que têm abraçado a misoginia expressam também uma admiração pseudo-nostálgica por uma ditadura. E esses professores dizem-lhes muitas vezes que, no tempo de Franco, eles iriam todos para o campo de trabalho de Furteventura, no que eles não acreditam. Mas o certo é que os tais nostálgicos de direita já criaram uma Fundação Nacional Francisco Franco, em honra ao Caudilho, tentando ocultar os 9000 corpos desaparecidos e exumados no pós- Franquismo e os 12000 que foram para valas comuns e nunca foram encontrados.

Isto é também consequência do governo espanhol ter criado, em 1977, uma lei de amnistia, que pretendia encontrar um tácito pacto social designado por “Pacto do Esquecimento”. Carracedo diz que a Espanha mudou, na realidade, para uma sociedade democrática mas não consegue esquecer o manto que oculta as barbaridades praticadas nos tempos de Franco.

A direita espanhola, como em muitos outros países, está a ganhar força .Trata-se de um problema europeu e mundial para o qual as populações devem estar alertadas. É o caminho para terminar com a democracia que conhecemos, que, como dizia Churchill , “é o melhor de todos os maus sistemas que existem de governação”.

Tenha-se cuidado com este fenómeno. As idas a Santa Comba Dão, ao cemitério onde se encontra Salazar, não são tão populosas nem frequentes. Mas é estimável que não aumentem.

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