A humanidade é cíclica nos seus comportamentos e sentimentos. As diferenças entre ricos e pobres mas, sobretudo, entre brancos e negros, têm vindo a ser acicatados, por todo o mundo e cá também, por gente de qualidade menor, mas que se faz ouvir pela gritaria que desenvolve, mesmo que pertençam a partidos políticos, arrogando-se o direito de expurgar, das sociedades em que vivem, todos os que não sejam iguais a eles, em cor de pele ou em identidade de ideologias. Dizem-se de “direita” mas, na realidade, nos tempos atuais, em que as esquerdas e as direitas tradicionais começam a diluir-se nos discursos dos “pensadores”, essa direita não é urbana e civilizadamente convivial e respeitada como, aliás, já foi e mereceu ser. Aqueles que apregoam essa nova “direita” não são mais do que os vendedores do conflito, do ódio, da pulverização do bom senso e de uma radicalização de costumes que nos faz lembrar (aos mais velhos e que viveram esses tempos) a época fulgurante do nazismo, do sionismo e do fascismo. Sim, não tenhamos receio de relembrar estes conceitos porque eles estão a ressurgir em muitas partes do mundo, e entre nós também.
Toda esta introdução vem a propósito de relembrar um dos maiores incidentes étnicos que teve lugar nos Estados Unidos. Ficou a ser conhecido como o “Massacre racial de Tulsa” e acaba de morrer, com 111 anos, uma testemunha desse massacre. Morreu há dias, chamava-se Viola Ford Fletcher e assistiu ao que se passou em 1921.


Conseguiu sobreviver, criar 3 filhos, trabalhou como soldadora num estaleiro durante a Segunda Guerra Mundial e passou décadas como governanta.
Viola tinha 7 anos quando o ataque de dois dias começou no distrito de Greenwood, Tulsa, em 31 de Maio de 1921. Tudo teve origem numa notícia de jornal informando que um homem negro tinha sido acusado de agredir uma mulher branca. A multidão começou a reunir-se, negros e brancos fortemente armados, e os confrontos foram de tal monta que morreram centenas de pessoas, as casas foram queimadas e saqueadas e 35 quarteirões dizimados numa comunidade conhecida como Black Wall Street. Ela conseguiu descrever como viu pilhas de corpos na rua e um homem branco atirando a cabeça de um homem negro para junto da sua família.
Só muitos anos mais tarde, por influência dos seu neto Howard, ela escreveu um livro de memórias, sempre com medo de vir a sofrer represálias por contar a história. O neto obrigou-a dizendo: “Não queremos que a história se repita, precisamos de educar as pessoas sobre o que aconteceu”. Quando da morte recente de Viola Fletcher a Prefeita de Tulsa, Monroe Nichols, disse “que a cidade estava de luto pela perda da “Mãe Fletcher” por tudo o que suportou e como conseguiu iluminar a vida seguindo sempre o seu propósito de relembrar e contar as desgraças a que assistiu”.
O ataque ficou praticamente sem ser lembrado durante décadas. O Estado de Oklahoma formou uma comissão em 1997 para investigar a violência. Fletcher testemunhou perante o Congresso em 2021, juntamente com o seu irmão mais novo e outra sobrevivente do massacre, Lessie Randle, num processo em que se pediam reparações. O Tribunal Supremo de Oklahoma rejeitou a alegação em Junho de 2024, dizendo que as suas queixas não se enquadravam “no âmbito do estatuto de incómodo público do Estado”.
Estas terríveis memórias que a História nos traz obriga-nos a pensar e a compará-las com os tempos que vivemos. Por todo o mundo se repetem massacres em massa, utilizando-se armas poderosas e muito mais letais. Morrem milhares ou milhões de pessoas à nossa vista nas televisões, em Gaza, na Ucrânia, no Sudão e o mundo, através das suas instituições mais acreditadas, não consegue pôr cobro a esses massacres.
Por isso comecei por dizer que a humanidade é cíclica nos seus comportamentos e nos seus sentimentos. E, para nosso espanto e incómodo, conformamo-nos a conviver , nós e os outros países ditos civilizados , com gente que propaga, pública e politicamente, a rejeição da imigração, a perseguição dos que nos procuram, rejeitando-lhes direitos mesmo que as obrigações estejam, por eles, a ser cumpridas. E este estado de coisas é perigoso porque, com a apatia que a maioria da população dedica a essas declarações (às vezes até apoiando-as) podemos ser conduzidos às tais derrapagens da sociedade que nos podem levar até aos exemplos históricos que, no início, enunciámos.
Há responsáveis mundiais que foram eleitos (só alguns) e que são os responsáveis pelas barbaridades a que assistimos . Lembremo-nos de Tulsa. É atual!!!
A vendeta, tão conhecida na sociedade italiana, é um dos exemplos de extremismo entre povos da mesma étnia, não pela supremacia das classes, mas principalmente, pelas minorias ou grupos de interesse! Da mesma forma, as diferenças rácicas, tão milenares, que ainda, neste nosso tempo de tolerâncias sociais, conseguem subsistir sob o único céu da civilização moralista das nações, tentam manter-se a salvo de uma miscigenação cultural, ligada ao nacionalismo mais severo e intrínseco!
Exemplos tão diversos, que a falta de cultura, mais do que de outros povos, podemos retirar da nossa história humanista, dos tempos da colonização…! Uma emigração massiva, que todos os anos, e por séculos, se espalhou pelo mundo, principalmente pela África e Brasil, resultando no tão afamado crioulo .
Também, a falta de cultura, numa nova situação económica e civilizacional, que levou os povos a divergirem das suas próprias índoles, levando-os ao afastamento, pela cor da pele, e à diferença de costumes sociais, em actos de desprezo e hostilidade.
Relacionamentos difíceis de superar, pelas diferenças, e os ódios que se acumulavam em todos os actos, ligados a superioridades e autoritarismos exacerbados. À exploração dos que se sentiam mais desfavorecidos de força intelectual, e mental. Dos mais tolerantes, de trato mais dócil e consentido…!
Eu próprio, testemunho de diversos actos, que constantemente me alertaram a consciência, para todas as discordâncias da civilização !
Dos meus tempos da Índia, própriamente em Goa, salta-me a memória para as queixas do meu dentista, pela forma como era tratado por certos elementos da tropa, em tons de austeridade e superioridade racial…! Ele, médico, formado por uma universidade de Nova Delli…! O mesmo, ou em piores circuntâncias, em Angola, numa plantação de café e cacau, onde fui gerente, por curto espaço de tempo. Não, porque não gostasse do que fazia, mas pelas razão de não suportar o ambiente…!
Castigos corporais, mais própriamente, à bofetada, por não apanharem o café, na quantidade habitual, medida por sacos, como mandavam as regras…!
Uma revolta instantânea, contra os brancos, em que fui incluido, embora não fosse interveniente! Actos de revolta, castigados a chicote pelos cipaios, sob comando do comandante de posto. Momentos de grande tensão, rápidamente esquecidos ! O respeito e a amizade, mostrados aquando do meu abandono do cargo, ao se perfilarem em sinal de despedida, em sinal de despedida ! Amizade, e sentido de obediência, quando fui tratado, de ataque de malária…! Febres altíssimas, entregues aos cuidados de um criado nativo, seguindo os cuidados e receita médicos, sempre atento às minhas queixas, face à situação de fraqueza física, no silêncio profundo da mata, e do isolamento do mundo, dito civilizado…!
Uma passagem por séculos de maus tratamentos, sempre iguais em todas as latitudes, por povos que se julgaram senhores do mundo, sem darem conta das suas desmedidas ambicições, e minuciosas vinganças, como hoje, ainda se verificam de outra maneira, talvez bem mais dramática…!
GostarLiked by 1 person