Foi meu colega nos idos de 1947 a 53 no Liceu Passos Manuel em Lisboa. Era dos que, por vezes, falava alto, pregava partidas aos mais próximos, era exuberante quando era chamado ao quadro ou a ler algum poema do livro obrigatório e, há que dizê-lo-lo, era inteligente. Éramos da mesma turma. Chamava-se José Carlos Gonzalez (para a malta era o Gonzalez).

Acabado o período liceal cada um foi para as suas opções de vida. Uns para letras, outros para ciências, uns foram professores , outros militares, outros engenheiros, foram, enfim, para aquilo que melhor lhes pareceu para as suas vidas. E, naturalmente, afastaram-se. Mas esse afastamento de vidas não os separou, realmente. Ainda agora, em todos os dias 7 de Outubro, todos os anos, os sobreviventes dessa turma reunem-se num almoço evocativo. Já são poucos, naturalmente, mas os que podem não faltam.

Mas voltemos ao Gonzalez, motivo do nosso texto de hoje. Afastou-se muito cedo de grupos de convívio mas desenvolveu uma atividade muito ativa no mundo das letras.

Procurei um pouco, já há tempos, o trajeto da sua vida, alertado pelas muitas notícias que surgiram nos jornais quando da sua morte no ano 2000.
No seu histórico reza: José Carlos Gonzalez foi um poeta, tradutor e técnico da Biblioteca Nacional de Portugal. Filho de galegos emigrados, iniciou a sua carreira poética aos 20 anos com a publicação de “Poemas da. Noite Nova”. Estudou Direito em Lisboa e Românicas e Ciências Políticas na Sorbonne em Paris, onde também trabalhou como secretário dos herdeiros de Albert Camus de quem traduziu obras, como também de André Malraux, Marguerite Duras e Julien Green. Na Biblioteca Nacional teve a seu cargo os espólios de Raul Brandão, de Vitorino Nemésio e Raul Proença.
A sua poesia foi marcada pelo surrealismo e aparece recolhida em várias antologias como: Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (1979), O Inverno na Poesia Portuguesa (1979) e Cem Sonetos Portugueses (2002).

Não o vimos durante vários anos até que, em 27 de Outubro de 1992, deu-nos a surpresa de comparecer ao jantar evocativo do 40º aniversário do exame do 5º ano do nosso Liceu. E brindou-nos com um soneto de sua autoria que aqui vos deixo:
Passaram quarenta anos
E tantas coisas passaram
Enganos e desenganos
Se perderam ou ganharam
Foi um tempo de sonhar
E outro de desespero
Houve o quero e o não quero
O esquecer e o recordar
Passaram quarenta ventos.
Correram quarenta rios
Todos para o mesmo mar.
E de passarem navios,
Navegar e naufragar.
Só restam os sentimentos.
O Gonzalez viveu os últimos anos da sua vida na Bretanha, na cidade de Douarnenez, onde morreu com 63 anos, no ano 2000.
Faz-nos gosto ainda poder apreciar alguém com quem convivemos nas nossas sempre atribuladas adolescências.