Somos, muitos de nós, dos tempos do colonialismo português. Fomos o último país do mundo a manter, orgulhosamente, o seu império colonial. Colónias a que, mais tarde, veio a designar por províncias ultramarinas para criar nos ambientes nacional e internacional uma ideia de expansão histórica que já não encontrava eco nas instituições internacionais.
Em 1961, a Índia que já era um estado independente desde 1947, ainda “suportava” no seu território três enclaves portugueses, Goa, Damão e Diu, para os quais as entidades internacionais não encontravam justificação, à luz das novas visões do mundo e, em especial, da conferência de Bandung, dos povos do terceiro mundo, onde Nehru recebera o mandato anti-colonial.
Salazar ignorou e desprezou essas indicações e manteve firme a sua posição colonialista em relação a Cabo Verde, São Tomé, Angola, Moçambique, Macau, Timor e, claro, os estados da Índia. Nunca acreditou que Nehru tomasse uma posição bélica contra os três enclaves portugueses e, nesse sentido, fez uma sondagem em Londres, relembrando a Aliança Luso-Britânica que o Foreign Office rejeitou relembrando a sua solidariedade com a Commonwealth de que a União Indiana fazia parte.
E, embora com o prévio conhecimento de Salazar, em 18 de Dezembro de 1961, a União Indiana tomou posse, pelas armas, de Goa, Damão e Diu. Nas vésperas deste evento Salazar enviou uma mensagem aos Comandos dos três enclaves uma mensagem que dizia: “No caso de ataque por parte da União Indiana resistir até ao fim. Em caso de situação completamente perdida afundar o navio. Rendição absolutamente intolerável. Espera-se da Marinha honroso comportamento como é seu timbre.”
Em sequência dos acontecimentos que acabaram por ocorrer em 1961, para grande espanto de Salazar, incapaz de aceitar a realidade e, ainda menos, de a aceitar, Salazar passa do desespero à insensatez e exige um sacrifício total. Vingou-se, mais tarde, demitindo, sem processos, o Governador do Estado da Índia e diversos militares apanhados nos contra-ventos da História.
Esta introdução serve apenas para comparar duas fases da História. Só em Janeiro de 1975 Mário Soares, na qualidade de Ministro dos Negócios Estrangeiros, restabeleceu os laços diplomáticos com a União Indiana , visitando-a, posteriormente, como Presidente da República, em visita oficial. Nessa altura passou por Nova Deli, onde visitou o túmulo de Gandhi e viajou por Damão e Diu.
Soares foi o primeiro estadista português a visitar a Índia, remodelando a política externa portuguesa.

Em 2017, após o seu falecimento, a Índia homenageou Soares durante a convenção da diáspora indiana com um minuto de silêncio.
A Índia mantém atualmente relações importantes com muitos países do mundo, como por exemplo o Brasil, com quem assinou importantes contratos comerciais.

Mas agora chegou a hora da Europa. A União Europeia foi convidada de honra das comemorações do Dia da República na Índia. Por essa razão estiveram presentes o Presidente do Conselho Europeu, António Costa e Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia. O acordo celebrado foi chamado “o acordo de todos os acordos” e teve lugar com todo o governo da Índia. No desfile que se realizou estava presente o Primeiro Ministro da Índia Narendra Modi e os dirigentes europeus já citados. O grande acordo assinado foi um primeiro grande passo para responder às ameaças das tarifas de Trump. António Costa não se escusou a mostrar o seu passaporte indiano pelo facto de ser natural de Goa.

A Índia é um país com 1,5 milhões de habitantes e este tratado de livre comércio (imaginado há cerca de 20 anos) ficou consumado numa altura fundamental para a força comercial da Europa e o seu maior relevo no mundo atual. A Índia torna-se este ano a 4ª maior economia do mundo tendo já, em 2024, havido trocas com a Europa da ordem dos 120 mil milhões de Euros (um aumento de quase 90% em dez anos).
Relativamente ao que se passou nos anos negros de 1961 a situação atual de Portugal e da Europa explica como a diplomacia democrática consegue atingir metas que as ditaduras e autocracias nunca conseguem afirmar. E Portugal, como se explicou de princípio, sabe bem disso.