Um Aviso aos Leitores

Quando o senhor meu pai, Manuel Marques da Silva de seu nome, iniciou o blog “Velhos São os Trapos”, a minha primeira reação foi de alívio. Confesso que me preocupou a perspetiva de o ver encarar uma nova fase da vida, a da reforma, necessariamente menos movimentada do que a anterior. Conhecendo o seu passado de intensa atividade profissional e associativa, receei que este novo momento pudesse comprometer a sua proverbial jovialidade, pela simples redução da participação cívica de que precisa como do ar que respira. Fiquei convencido de que, mesmo que o blog não fosse particularmente bem-sucedido, o facto de lhe ir ocupar o tempo e o espírito seria razão bastante para, em família, o estimularmos nesse percurso.

Como acabei por perceber, não só a preocupação era infundada como a qualidade da escrita e o seu conteúdo vieram confirmar que, realmente, “velhos são os trapos”. A verdade é que o blog passou a contar com muitos leitores interessados e fiéis cuja chama não esmoreceu quando, 100 artigos depois, o fundador decidiu convidar três amigos da sua geração para acrescentarem valiosa contribuição ao conjunto de textos. Foi, pois, sem surpresa que estes acabaram reunidos num “não livro” cuja apresentação pública deixou evidente o seu alcance e receptividade.

Esperava eu que os merecidos louros da ocasião incentivassem os autores a prosseguir um caminho de sucesso comprovado quando, contrariando a velha máxima de que “em equipa que ganha não se mexe”, estes decidiram convidar-me a escrever no seu blog. E pronto: estragaram tudo!

Estragaram tudo porque a este vosso humilde servo falta tudo o que a eles sobra: a erudição, a finura literária, a experiência de vida, o humor, a imaginação e, como se isto não fosse suficiente, o tempo.

Com requintes de malvadez e alguma chantagem emocional (como se pode rejeitar a um pai um convite destes?), decidiram sujeitar os seus fiéis leitores à imerecida sevícia de me lerem. Os meus sentimentos. E as minhas devidas desculpas.

Sinto-me, pois, na obrigação de, tal como na bula de um qualquer medicamento, incluir a posologia, sob a forma de aviso aos leitores: os meus artigos devem ser lidos, se de todo o forem, com a mais baixa das expetativas, uma bebida de teor alcoólico elevado ao lado (sempre ajuda a aguentar a provação) e uma profundíssima benevolência. 

Felizmente para os leitores, a minha presença neste espaço não deverá ser muito assídua. Como não sei fazer mais nada, sou alguém irremediavelmente ocupado com o trabalho, sobretudo num momento em que enfrento um desafio profissional recente e exigente. E como se o tempo já não fosse escasso e eu não tivesse idade para ter juízo, fui-me envolver num projeto musical amador que, francamente, tem propósitos mais terapêuticos do que artísticos. Por isso, ler-me-ão, se para tal vos chegar a paciência, em doses homeopáticas. 

A mitigar a vossa provação, saúdo o facto de o convite que me foi dirigido o ter sido igualmente a uma mão cheia de outros bloguistas que vieram aumentar esta “família” e acrescentar-lhe inegável valor. Estou certo que os seus textos superarão em muito o interesse que os meus possam suscitar, assim aliviando o meu sentimento de culpa.

Resta-me deixar-vos um aviso final: eu considero-me o oposto a um especialista. Interessando-me por uma extensa variedade de temas, acabo por raramente refletir e aprender sobre eles de forma suficientemente profunda e informada. E, portanto, os meus artigos correrão sempre o risco de se juntarem à já longuíssima lista de “achismos” que poluem as redes sociais. Todos temos opinião sobre tudo, como é natural, mas não, as opiniões não têm todas o mesmo peso. Tentarei suportar as minhas na informação mais completa e no conhecimento mais profundo que conseguir reunir em cada momento. Mas deixo-vos antecipadamente uma declaração de isenção de responsabilidade: lerão os meus artigos por vossa conta e risco. E no fim, poderão usá-los para o que vos aprouver… (sim, para isso também).

Alea jacta est! (não se impressionem com a citação em latim, é cultura de Asterix).

NOTA: o autor escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico porque é lei no seu país, as crianças aprendem-no na escola e está farto de uma polémica tão entediante quanto inútil.

7 pensamentos sobre “Um Aviso aos Leitores

  1. Trata-se do teu sogro, João Luís?
    Que sorte tiveste em encontrar a tua fada Cristina e a família fantástica que ela tem e que, me parece, estares muito bem integrado. Fico feliz por ti e gosto muito da Cristina.
    Desde a tua inesquecível festa dos 60 anos, fiquei surpreendida com a polivalência da tua nova família e da tua participação efetiva, na mesma. Adorei. E fiquei muito com uma sensação agradável. Beijinhos para ti ea Cristina e parabéns ao teu sogro.

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  2. Gostei muito deste “Aviso aos Leitores”, especialmente, da citação em Latim (cultura de Asterix) e da escrita em doses homeopáticas. É o tempo do nosso tempo… Foi bem convencido! 😉 🙂

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  3. ” Dimidium facti, qui bene coepit habet “- Não sendo letrado em latim, como em milhentas outras coisas, não deixo de apreciar certas citações nesta nossa língua madre, o que para este caso, assenta como uma luva ao autor deste texto, que apreciei bastante…!

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  4. João Pedro – certíssimo o quê escreveste . Teu pai, passamos anos e continua com aquele espírito aberto, e projetando algo mais para o futuro . Que felicidade a nossa ! Que continue assim . Felicidades !

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