A Suave Evolução do Roubo

O roubo, como muitas atribulações da vida, não é coisa nova. Pratica-se desde tempos imemoriais, em formas mais agressivas e brutais ou indo até às mais maliciosas, inteligentes e sofisticadas. Não é a história dos roubos que vou aqui abordar. Isso fica para os especialistas, para os doutores que estudam o fenómeno ou para os protagonistas que os praticam. A luta contra o roubo é missão permanente das forças do bem embora se diga que o ladrão está sempre um passo è frente do investigador.

Deixemos isso para os especialistas e relembremos apenas alguns modelos de roubos que nos enfeitaram a vida. Na minha primeira juventude o roubo de batatas ou de outros produtos de uma mercearia era relativamente frequente. Ou o merceeiro fazia vista grossa quando a coisa era pouca e o burlão conhecido, ou então chamava-se a polícia e o assunto resolvia-se rapidamente. Com multa, pequena prisão ou umas “porradas” como se dizia naqueles tempos. Mas os jornais nem falavam nisso, eram casos espúrios e menores, muitas vezes cometidos por gente que, com pouco ou nenhum dinheiro, roubava para comer. O país era um país pacífico, sólido, onde não havia o roubo como tema. Só os de melhores e apessoadas famílias , à sombra das tutelares proteções que governavam na época, iam cometendo as maiores falcatruas , com ganhos exorbitantes , de que se falava nos cafés mas que eram fortemente repudiados pelo poder. Houve até, nos meus tempos de juventude, um ministro famoso que surpreendeu o próprio Presidente do Conselho da altura quando apareceu na reunião com um Jaguar novinho em folha (não é anúncio à marca). Apesar da surpresa não deixou de lhe dizer: “Então carrinho novo, senhor ministro…” Ao que outro, segundo se contou, sorriu sem se pronunciar.

Modelos de épocas que vão passando e que vão deixando lições aos que seguem essas modas. As coisas foram evoluindo e todos se lembram do célebre porteiro da Colgate que sugeriu, há muitos anos, que alargassem a abertura do tubo porque dessa maneira os consumidores gastavam mais pasta para os dentes porque apertavam o mesmo. Chegou a administrador, claro. Essas ratoeiras comerciais prolongaram-se e refinaram nos tempos que correm. As pastas de dentes, de qualquer marca, têm fortes cargas de ar lá dentro o que reduz, evidentemente, o volume de pasta a consumir. Este é o tipo de roubo público, quotidiano, a que todos estamos sujeitos. O peso marcado nas embalagens, pelo qual pagamos o produto, é, normalamente, superior ao seu valor real. Basta chegar a casa e pesar. As organizações públicas de controlo público dizem que andam atentas mas a coisa é difícil. É o tal caso em que o ladrão vai um passo à frente da gente de bem.

Não vale a pena fazer sumários sobre os milhares de roubos que se praticam em todo o mundo, em toda a parte. Mas, às vezes, quando as notícias nos chamam mais a atenção, ficamos a pensar nos porquês dessas “habilidades” , realizadas por gente educada , socialmente bem acolhida e, de repente, pum! Aí vem a notícia. É a ganância, a convicção de que os seus conhecimentos lhes bastarão para passarem icólumes no meio do caos a que já se habituaram. Porque é que um Diretor do Museu da Presidência, em Portugal, depois de tantos anos de desempenho elogiado e reconhecido é condenado a 6 anos e meio de prisão efetiva, acusado de 18 crimes praticados ao longo dos anos sem que se desse por isso até agora. Crimes de peculato, de participação económica em negócios, falsificação de documentos e tráfico de influências. Dir-se-á que não é o primeiro, que é muito vulgar este tipo de práticas, cá e em toda a parte. Eu sei. Mas porquê? Não é um caso de roubar para comer.

A escritora brasileira Iara Lemos escreveu um livro com o título “Igreja Católica usa Haiti para proteger padres pedófilos”. E conta nesse livro que “O sistema de proteção criado pela Igreja Católica envolve o Haiti, Brasil, Estados Unidos, Portugal e outros, desenvolvendo um esquema criminoso para deslocar, esconder e proteger os religiosos acusados de pedofilia”. Não acham isto repugnante? Fazer deslocar gente com vícios por vezes incuráveis para locais onde, decerto, continuarão as suas práticas criminosas. E partindo isto da Igreja Católica…

A Confederação da Indústria Britânica, o grupo de “lobby” empresarial mais forte da Grã-Bretanha, corre o risco de insolvência na sequência de escândalos sexuais praticados ao longo dos anos por parte de diversos dos seus membros, incluindo o ex-diretor geral do grupo. As queixas são muitas e o assunto não se resolverá com facilidade. Parece que por cá também tem havido casos destes mas as vítimas desses actos levam tempo a contar o passado.

A cientista americana Elizabeth Holmes, de 29 anos, fundou um laboratório para exames de sangue, em Silicon Valley, chamado Theramos, assumindo o cargo de diretora executiva. Em 2015 foi considerada pela revista Time como uma das cem pessoas mais influentes do mundo. No entanto, a partir dessa altura, começaram a surgir investigações e acusações de que os seus sistemas eram fraudulentos e lhe deram lucros fabulosos pela sua atuação principalmente em testes relacionados com HIV, cancro e abortos espntâneos. Ela e o seu parceiro investigador Ramesh Balwani foram acusados pelo tribunal, em 3 de janeiro de 2022, de 4 gravíssimas acusações. Foi condenada a 11 anos de prisão que começou recentemente a cumprir. A ciência ao serviço do mal.

Perguntar-se-á a razão da referência deste tema e destes poucos casos. Responderei que eles retratam os milhões de roubos e comportamentos criminosos que se passam em todo o mundo, todos os dias. E, em especial, para aqueles que nunca são descobertos ou que, sendo-o, usam todos os meandros e recursos da justiça para adiar ou fazer prescrever os seus crimes.

Parece que por cá também há razões de queixa… E não se resolve com umas “porradas” como nos meus tempos de adolescência.

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