RATOS E HOMENS

Muitos de nós terão lido, na sua adolescência, o livro de John Steinbeck “Ratos e Homens” , escrito em 1937, no qual o autor descrevia , com agudeza, a violência praticada pelos grandes agricultores da California contra os seus trabalhadores negros, grande parte imigrantes que passavam por dolorosas experiências de descriminação e abuso. Era o racismo, na sua época mais violenta dos anos 30 do século passado, exposto como denúncia, por parte do autor , do enorme grau de liberdade que reinava, nesse domínio, por todos os Estados Unidos. Um racismo que perdurou décadas, que deu origem a gigantescos movimentos de libertação, que revelaram novos líderes e grandes personalidades, muitas delas assassinadas, presas ou encobertas pelas leis vigentes. No texto do autor eram os “homens” contra os “ratos” , os grandes fazendeiros contra os assalariados imigrantes e negros. O racismo, um fenómeno que perdura e que não se elimina em muitas partes do mundo.

Lembro-me de ter lido o livro, ter percebido a desconformidade e a denúncia dos casos mas ter interiorizado, talvez pela época e pela minha idade, que se tratava de um tema que seria , em breve, ultrapassado. Enganei-me como os anos me vieram, paulatinamente, a demonstrar. O negro Crooks da história contada no livro multiplicou-se pelo mundo fora e chegou aos nossos dias. Não me considero racista (serei capaz de o demonstrar?) mas reconheço que as sociedades continuam a padecer desse mal, muitas vezes estimuladas por gente, grupos ou partidos que vêem nessa faceta da vida uma forma de ganhar reconhecimento e, alguns deles, infelizmente, votos.

Vem tudo isto a propósito de uma jovem negra irlandesa ter sido ameaçada depois de ter pedido que fosse retirado do curriculum do seu curso a leitura do livro “Ratos e Homens”, pelo facto de se sentir desconfortável pelos comentários a que foi sujeita durante as aulas do curso. Tanto ela como a família foram postas sob segurança. A mãe foi entrevistada pela BBC onde teve oportunidade de criticar a falta de liberdade para expressar a sua opinião num país que se considera democrático. Mas, como disse o diretor da Amnestia Internacional da Irlanda do Norte: “o país é democrático mas, infelizmente, o racismo americano de 1930 chegou até aos nossos dias”.

A jovem irlandesa talvez ainda não tenha compreendido como o mundo se transformou ao longo destes anos e que os “homens” e os “ratos” de Steinbeck têm hoje vestuários e enquadramentos diferentes. Pululam pelo mundo seitas inomináveis que se dedicam às maiores obscenidades em prol das suas incontáveis fortunas . São os “Ratos” do nosso tempo que, à sombra de leis iníquas e de preversidades de realização instantânea, desfazem e ultrajam os “Homens” que tentam levar vidas equilibradas e decentes. Vidas que ficam, muitas vezes, dilaceradas e manchadas para sempre. É contra estes novos “Ratos” que as sociedades devem estar atentas e vigilantes. O racismo da cor continua a existir mas já não produzirá, talvez, os mesmos e terríveis danos praticados pelos novos energúmenos das nossas sociedades. John Steinbeck foi ativo na sua denúncia, escreveu um livro para a História. É bom que apareçam muitos livros que denunciem as tropelias sociais que hoje se praticam. Para que venham a servir de lição como o que Steinbeck escreveu.

2 pensamentos sobre “RATOS E HOMENS

  1. A literatura americana, foi e ainda hoje é, uma das leituras que mais me apaixonaram, pela liberdade, pela forma simples e pela diversidade de assuntos. Uma leitura fácil, normalmente despida de vaidade intelectual, revelando uma sociedade multifacetada, sempre disposta ao confronto. John Steinbeck, e muitos outros clássicos, como Truman Capote e mais recentemente, Harper Lee, em Mataram a Cotovia, sempre me deram a ideia da vida real do interior deste país, que vim a conhecer por alguns dias, cuja dureza deu imensos motivos para bons filmes, a partir dos seus romances.

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  2. Também na minha juventude li e apreciei muito o John Steinbeck. Mas as denúncias que ele e muitos outros fizeram, infelizmente, continuam a ser necessárias no mundo de hoje e até no nosso país

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