GARE MARÍTIMA DE ALCÂNTARA-Pequenas histórias…!

Era ainda muito jovem quando entrei pela primeira vez naquele maravilhoso salão onde me parecia caber todo o mundo português. Admirado pelo espaço iluminado pela luz que penetrava através da parede envidraçada da entrada, deixava-me ficar parado a olhar  minuciosamente, as figuras dos enormes painéis, que me pareciam saídas dos livros escolares da História de Portugal. Tentava adivinhar as figuras de estilo modernista, que tanto me pareciam Gil Eanes, de Bartolomeu Dias, ou de qualquer outro herói dos descobrimentos. Algumas figuras dos marujos, tão do gosto dos mais novos. Os traços firmes, emprestavam-lhes a força e a dureza das cenas, alimentando a minha imaginação. 
Sem se dar grande importância à arquitectura daquele belo edifício tão ao gosto da época, projectado pelo Arq. Pardal Monteiro, o salão ia-se enchendo de passageiros já sem a preocupação da bagagem, antecipadamente entregue aos bagageiros. Um ritual natural de quem já se tinha habituado a estas situações. Famílias e amigos, trocavam umas últimas impressões, misturadas com promessas de novos encontros, a anos de distância. Uma boa parte das pessoas, mostravam o à-vontade de quem era bem sucedido por terras brasileiras. Mostravam a desinibição natural de quem já se habituara a estas longas viagens. As conversas aumentavam o volume das vozes que ecoavam pelas pinturas de Almada Negreiros, no meio de entusiasmos e expectativas, de sorrisos e de algumas lágrimas que insistiam perdurar até ao embarque. Vários temas de conversa, juntavam-se à ansiedade, que uma longa separação tornava sempre dolorosa.
Lá fora, junto ao cais, a azáfama era grande, tornando-se diferente o tratamento dos passageiros que se acotovelavam para apresentar os seus documentos e ultimarem a sua entrada no navio. Os bagageiros, atarefados para ganhar mais uns escudos extras, subiam e desciam as escadas de portaló, numa corrida desenfreada, carregando sacos e malas de camarote, numa sucessão infernal. 
Uma brisa marítima, influenciada pelo fumo e o vapor saído da chaminé do navio, entrava pela portas abertas, dando notícia de que a hora de partida se aproximava. Era impossível, não nos deixarmos contagiar pelo momento em que a saudade começava a fazer-se sentir.
Um grosso ronco, anunciava o momento de partida...! A retirada da escada de portaló, começou a fazer-se, isolando os que partiam e os que ficavam. Começava a tradicional festa de despedida, com o lançamento de serpentinas de várias cores, atiradas dos deckes, como se fossem simbólicos elos de ligação, que se estendiam através do Oceano.
Em movimento lento, o navio começava a afastar-se do cais, entre gritos de saudação de ambos os lados, até que novos sinais sonoros, indicavam as manobras de navegação...!   
   
Foto da autoria de Orlando Almeida

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