Poderia não escrever nenhum texto sobre este tema. Toda a comunicação social já dissertou largamente sobre o facto. Na verdade, mais uns do que outros. Kundera foi, para as gerações mais antigas, nas quais me incluo, o símbolo de um aprazível lutador. Lutador e defensor de causas como as que assaltaram a sua pátria original, a Checoslováquia, quando em 1968 se envolveu na Primavera de Praga , um ideal de libertação que durou pouco tempo por, nesse mesmo ano, se ter verificado a invasão soviética de Praga pelo exército do Pacto de Varsóvia. Na sua juventude foi muito influenciado pela Segunda Guerra Mundial e pela ocupação alemã. Por essa razão filiou-se no Partido Comunista em conjunto com outros lutadores e colegas seus da Academia Checa de Artes e Ciências. Outro escritor famoso que sempre o acompanhou foi Jan Trefulka e, pelas opiniões e livros que iam publicando, acabaram por ser expulsos do Partido Comunista para, mais tarde , virem a ser readmitidos. Mas a Primavera de Praga que o havia ligado ao também escritor Václav Havel (mais tarde Presidente da nova Checoslováquia democrática) fê-lo perceber o caminho a seguir e a opção a tomar. Em 1975 foi viver para França recebendo a cidadania fancesa em 1980.
Foi a partir daí que escreveu os seus mais famosos livros de entre os quais me permito destacar “A Insustentável Leveza do Ser”, não porque este meu destaque tenha algum mérito especial mas porque foi, talvez, o livro que lhe terá dado mais fama. Embora escrito em 1983 a sua primeira edição só teve lugar em 2003. Com base neste livro foi realizado um filme com o mesmo nome com as participações de Daniel Day-Lewis e Juliette Binoche que recebeu duas indicações para o Oscar e nos deixou, a todos os dessa época, um especial encantamento. Milan Kundera não mais autorizou a adaptação cinematográfica de qualquer dos seus livros. Outras obras suas foram e são ainda muito apreciadas como O Livro do Riso e do Esquecimento , de 1979, ou A Imortalidade de 1990.
Talvez as novas gerações não tenham tido oportunidade de ler as obras de Kundera ou de conhecer a importância da sua vida atribulada na democratização da Checoslováquia, mais tarde pacificamente repartida entre a Chéquia e a Eslováquia. A intenção deste texto não é contar essa história. Gente muito mais habilitada já o tem feito. Ficaria contente, no entanto, se jovens com quem agora convivo pudessem envolver-se nessas leituras na altura em que Kundera morreu com 94 anos de idade.