As Forças Armadas, nacionais e estrangeiras, sempre capricharam no aprumo dos seus militares e pelas indumentárias por eles utilizadas. É da tradição dizer-se que muitas fardas militares terão sido responsáveis por amores, paixões e casamentos que se prolongaram para a vida. Às vezes as coisas não terão corrido da melhor maneira mas a culpa não foi das fardas…
Os três ramos das Forças Armadas portuguesas, Marinha, Exército e Força Aérea utilizam fardas diferentes, mas sempre se disse que os botões dourados da fardas azuis da Marinha (fardas de inverno) e as escorreitas fardas brancas de verão foram por demais marcantes nos contos e nas histórias que o povo foi elaborando sobre elas ao longo dos anos.
Os tormentosos tempos das guerras coloniais, no decénio de 60 do século passado, diluiu um pouco esse encantamento pelos desgostos que muitas famílias com a ida dos seus familiares para essas guerras sem sentido, sem objetivos razoáveis a curto e longo prazo, pela única e intolerável teimosia de quem, nessa época, governava o país e dele se distanciava sem de que tal se apercebesse, isolando-se, ao mesmo tempo, das correntes liberalizantes que sopravam por todo o mundo. A população passou a divorciar-se das Forças Armadas, vendo nelas apenas uma ameaça ao país e não o espírito de segurança que, em princípio, elas lhe deviam transmitir. A partir dos anos 80 desse mesmo século as coisas modificaram-se e as Forças Armadas, já reformuladas, passaram a desempenhar as missões que delas se espera num país democrático.
O apreço pelos homens e mulheres fardados aumentou de novo. As pessoas voltaram a confiar nos seus militares. Esta introdução pareceu-me indispensável para respaldo da bonomia com que poderemos aceitar a pequena história que passo a relatar.
No ano de 1988, no âmbito de um Curso do Instituto de Defesa Nacional, oficais dos 3 ramos das Forças Armadas deslocaram-se a Madrid para conferências a realizar no prosseguimento do Curso que estavam a frequentar. Como é hábito nestes casos, esses oficiais foram recebidos numa cerimónia oficial na qual estaria presente o Rei de Espanha. À data o Rei D. Juan Carlos (Juanito como era apelidado pelos portugueses, por ter vivido na adolescência em Portugal-Cascais, onde tinha muitos amigos). O seu estado de saúde é, atual e infelizmente, muito precário.
Mas, regressando à cerimónia de 88, quando todos os oficiais se perfilaram para a entrada do Rei, foi com enorme surpresa que D.Juan se aproximou de um oficial da Armada e o convidou a deslocar-se consigo a uma sala contígua. O espanto e a preocupação perpassaram pelos outros militares que, discretamente, aguardaram. O nosso oficial acompanhou o Rei, suponho que se terá perfilado da forma mais correta possível até o Rei o descansar e, com grande amabilidade, lhe perguntar se se importaria que o fotografassem para guardar o modelo da farda branca da Marinha e adaptá-la à Marinha espanhola. O nosso marinheiro, aliviado, correspondeu facilmente ao pedido, e regressou para junto da sua comitiva.
Não sei se as fardas da Marinha espanhola ainda conservam o modelo das portuguesas mas, por consulta ao inefável Google, confirmei que, naquela época eram realmente muito semelhantes. As atuais, tanto quanto vi, guardam o mesmo estilo com visual muito semelhante.
Aqui fica a descrição, real, de uma pequena “epopeia” naval da Marinha Portuguesa que a maioria das pessoas desconhece. Acho que o “encanto do botão dourado” tem regressado com entusiasmo, não sei se com a mesma dose de paixões e casamentos consumados. Mas o inusitado da história mantém-se, principalmente no âmbito familiar do garboso oficial que tanto contribuiu para a galhardia da Marinha espanhola.
Episódio realmente interessante e denunciador do bom gosto do Rei Juan Carlos !
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