A GREVE DAS ESTRELAS

Nas cidades, é certo e seguro, que quando olhamos para o céu poucas estrelas conseguimos distinguir, tal a luminosidade que nos rodeia. Mas se estivermos num sítio ermo, um daqueles nos quais alguns de nós se conseguem refugiar no verão, aí aparecem elas de novo, as estrelas, a brilharem com mais ou menos esplendor. Conseguimos até, algumas vezes (os mais versados, claro) reconhecer constelações que tínhamos aprendido nos anos escolares. A cassiopeia, a orion, as ursas maior e menor, enfim, alguma coisa que a nossa cultura geral vai guardando no “saco azul” do nosso cérebro. Vemos também, de quando em quando, o fulgor de uma estrela cadente, deixando um rasto de luz à sua passagem para nos desaparecer rapidamente na imensidão desse céu onde não voltaremos a vê-la.

Mas não é por esta diferença entre as estrelas que se vêem no campo e não se vêem na cidade que dizemos que as estrelas entraram em greve. Não, a greve a que me refiro é a greve da chamadas “estrelas do cinema”, daquelas e daqueles que preenchem as partes lúdicas das nossas existências. O cinema , nos últimos anos, tem sofrido uma redução sensível nas receitas de bilheteira em resultado do aparecimento e crescimento logarítmico das plataformas digitais e da imensidão de séries e filmes que nos são facultados em abundância nessas redes mundiais. Já lá vai o tempo em que as “estrelas” nos levavam à salas de cinema para apreciarmos , mais que os seus desempenhos, a esbelteza das suas figuras. Nenhum de nós, os mais “antigos”, se esquece das figuras míticas de Marylin Monroe, Gina Lollobrigida, Sofia Loren, Claudia Cardinale, Monica Vitti, Natalie Wood, Kim Novak e muitas outras que me dispenso de enumerar. As meninas também gostavam de ver o Clark Gable, o Gregory Peck, o MarlonBrando, o Tony Curtis, o Kirk Douglas (pai do já “canastrão” Michael Douglas) e outros por cujos nomes a memória já me resvala.

A poderosa Sag-Afra (abreviaturas de Screen Actors Guild-American Federation of Television and Radio Artists) que representa cerca de 160.000 atores decidiu entrar em greve e desafiar os patrões da indústria relativamente aos seus salários, aos critérios de escolha e às condições de trabalho nos novos meios que, embora diferentes do cinema convencional, acabam por lhes ocupar os mesmos tempos e causar as mesmas preocupações. Tudo isto resultou num caos de difícil eliminação. Atores que não compareceram às filmagens, outros que sairam das salas das estreias ao tomarem conhecimento da greve, e muitos que compareceram em manifestações que, como se calcula, tiveram grande audiência. A Presidente da Sag-Afra, Fran Drescher, num longo discurso transmitido por todas as estações americanas disse bem alto: “Acordem e cheirem o café! Exigimos respeito! Shame on you! Vocês não podem existir sem nós.

Jamie Lee Curtis

Jamie Lee Curtis (filha de Tony Curtis) exibindo-se ainda, apesar da idade, com algum encanto, aderiu à esta luta cujo final não se enxerga mas que, decerto, nos vai privar de muita coisa nos nossos tempos vagos. Acho melhor aproveitarmos esses tempos de lazer, procurar um lugar solitário, e olhar para o céu. Lá estarão as estrelas, porque essas não fazem greve.

2 pensamentos sobre “A GREVE DAS ESTRELAS

  1. Também tenho saudades desse tempo em que ir uma vez por semana ao cinema com os amigos era um ritual. Mas acho que devemos resistir a esse saudosismo e aproveitar as distracções que os tempos modernos nos proporcionam. Por exemplo, ver Comissões de Inquérito Parlamentares (ou Para lamentar) , audições, sessões plenárias. Têm sempre números de variedades!

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  2. É verdade que o cinema quase morreu…! Depois de ler este belo texto, fiquei a pensar no que temos perdido nos últimos dez anos, se não muitos mais, em que quase desapareceu a imagem de grandes dimensões, daquele mundo cinematográfico que idolatrávamos. E tanto nos fazem falta, aqueles momentos em que circulávamos pelos foyers das boas salas de Lisboa, onde nos parecia conhecermo-nos todos uns aos outros, durante o intervalo para um cafézinho no bar. A evolução da vida, nem sempre corre em linha recta…!

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