A PRÁTICA DAS PRAXES

Nesta época estival de “rodagem “em ponto morto tenho verificado que o pensamento não dorme. Direi mesmo que o pensamento não está de férias. Ler livros é a recomendação mais vulgarizada por amigos, pediatras, psicólogos, comentadores (a comissão sempre faz jeito) e autores, estes por razões óbvias, para ocuparmos os tempos lúdicos que se nos oferecem. Trouxe alguns. Claro que há a solução da pesca, da caça, das muitas modalidades desportivas, mas nenhuma nos recomenda que paremos e esperemos por qualquer apontamento que o nosso pensamento recolha.

Eu estava neste misto de apatia e de negação em escrever sobre fosse o que fosse. Férias são férias e pronto. Não se fala mais nisso. Mas eis que, de repente, um artigo de jornal (dos que mesmo em férias se espreitam) falava de um tema que acordou os meus neurónios : as praxes! Não sou doutorado na matéria mas o tema trouxe-me ao pensamento saborosas recordações que se nos colam para a vida inteira.

As praxes não têm data de nascimento nem prazo para registo. Sabe-se por tradição consuetudinária que sempre se tratou de pregar umas partidas, mais suaves ou mais agressivas, a novos praticantes de conjuntos ou instituições. Nos tempos que correm um novo jogador de futebol passa por um túnel dos que lá já estão e vai levando umas estrepitosas calduças que acabam sempre em risada e irmandade finais. Mas não é sempre assim. As universidades espalhadas por todo o mundo usam e abusam dos cerimoniais da praxe, transformando, muitas vezes, uma prática saborosa de acolhimento em práticas desconformes e obscenas que apelam a instintos que não julgávamos existirem na gente do nosso tempo que recebe os mais novos.

Já no século XVIII o rei D. João V se quis opor a essas práticas soezes. ,Havia castigos e punições, mas de nada serviu. É esse, por outro lado, o “encanto” das praxes: são disfarçáveis e, se bem praticadas, geradoras de cumplicidades.

As praxes são proibidas por todas as instituições mas continuam a verificar-se nos inícios dos anos letivos. Mas deixemos as histórias e falemos do meu acordar nesta sonolenta época de férias. Sim, eu também passei pelas praxes, recebendo-as com a elegância possível e fazendo-as com o humor que as situações sempre desencadeiam.

Vou contar algumas pequenas brincadeiras que se passaram numa instituição militar que frequentei há mais de 60 anos e que ainda hoje são lembradas pelos que sobram dessa época. Não identificarei ninguém, envolverei apenas os factos com o “manto diáfano “ das minhas recordações.

Um dos novos que entraram no meu ano foi designado por “Chiclete “ e era obrigado a cantar, sempre que lhe “ordenassem “, a canção completa com “requebros sensuais” e que dizia:

Oi chiclete tem
De tutti fruta e hortelã
Oi chiclete gosto dessa goma de mascar!
E masca o pai e masca a filha
E masca toda a família
Essa goma de mascar!

E a coisa repetia-se vezes sem conta até o “chefe da praxe” (havia sempre um) dizer para acabar por já estar farto.

Havia também uma chamada sala de música (com piano e mesas para cartas) com entrada proibida aos caloiros. Às vezes algum deles era intimado a entrar na sala aos gritos de “Entrei fazendo fé na minha força “! O que lhe acontecia a seguir pode-se imaginar… Um dos novos alunos era conhecido pela sua esmerada educação em música clássica. Sabia de cor todas as peças importantes das óperas mais conhecidas. Foi adotado por um outro cadete do 2.o ano para o acompanhar nas sessões de estudo noturno que tinham lugar, todas as noites, das 21.00 às 22.00, hora do recolher. A pedido desse cadete o jovem mancebo ia trauteando, baixinho, embora contrariado, as peças musicais que o outro lhe pedia para acompanhar o estudo. Fez-se uma amizade para a vida.

Brincadeiras deste jaez eram conhecidas pelos oficiais que ignoravam, com certa bonomia, fazes pelas quais também já tinham passado. Até que um dia foi nomeado comandante da Escola Naval um glamoroso comodoro, chegado de terras ultramarinas, com muitas aspirações a cargos superiores, políticos até, segundo se dizia. Uma das suas primeiras decisões foi proibir a praxe na escola, decisão que mandou publicar acrescentando que o cadete que fosse culpado de tal facto seria expulso da EN. Os alicerces da rapaziada tremeram mas o tempo encarregou-se de aliviar o ambiente. E numa tarde, antes do jantar e após a parte desportiva, o balneário encheu-se para o respetivo duche. A água quente durava pouco tempo pelo que só os terceiro-anistas dela beneficiavam. Para os outros era a água fria. Um terceiro-anista , num desses duches resolveu contratar um jovem mancebo como seu criado grave. Após o duche e vestido o roupão branco militar o terceiro-anista resolveu montar-se às costas do mancebo e iniciar uma fogosa cavalgada pelo corredor até à sua camarata. Nessa corrida foi acompanhado por outro terceiro-anista que ia incitando o improvisado “montado”. O pior foi que, na esquina do corredor, apareceu o oficial de dia que fez com que aquele trio se disfizesse e tombasse no chão. A confusão foi alguma e o que ia a incitar a corrida foi chamado ao gabinete do oficial, no lado oposto da parada, que percorreu na esteira do oficial com as chanatas e o roupão. Chegados ao gabinete o oficial pronunciou-se dizendo: “ O senhor vai para o livro por ir às costas do cadete X. “ Peço desculpa, senhor tenente, mas eu não ia às costas de ninguém.” Resposta rápida do oficial: “É mentira. Então quem era o cavaleiro?” Resposta do cadete: “Isso não sei.” Percebendo que não ia obter resposta que lhe interessasse mandou formar o curso no átrio, do outro lado da parada, e percorreu o mesmo trajeto. Com a formatura pronta perguntou: “Este cadete diz que não ia às costas do cadete X. Então quem era? “ Ouviu-se um passo em frente e uma voz dizendo: “Era eu, senhor tenente”. Podem vestir-se e ir jantar. O senhor fala comigo agora. O verdadeiro cavaleiro apanhou uma punição qualquer mas seguiu a sua brilhante carreira na Marinha. Ficaram todos amigos para a vida.

Vou terminar este texto não com mais uma praxe, o que seria interminável, mas com um facto verdadeiro que se passou com o curso a que me refiro. Fecharei depois o arrazoado com uma prática final de praxe geral.

Uma das aulas mais importantes do curso era a de Navegação cujo professor era uma daquelas feras que nos ficam para a história. A despeito da sua forma de ensino as chamadas orais (chamavam-se repetições orais) eram um horror, um tomba-gigantes. Uma dessas orais estava prevista ser de arrasar. Ainda por cima ele tinha uma queda de chamar, com frequência, um dos alunos em cuja sabedoria acreditava pouco. Embora a chamada fosse por bolas de madeira retiradas de uma urna, acabava sempre por ir lá o tal que ele “perseguia”. Dessa vez o cadete não esteve com meias medidas e baixou à enfermaria (enferma em termos práticos). Nesse dia foi, portanto, chamado um outro que apanhado desprevenido, ensaiou um desmaio agarrado a um globo terrestre em ardósia que estava sempre na mesa do mestre. Todos se levantaram e o transportaram em braços para enferma, atravessando a parada. O professor acompanhou-os e, quando chegou à enfermaria perguntou em alta voz: “Onde está esse homem?” O primeiro, que tinha pedido baixa por doença, pensando que a pergunta era para ele, saiu da cama e saltou pela janela (era piso térreo). Entretanto o outro “acordou” do desmaio e ficou deitado. O professor perguntou pelo que estava de baixa tendo ele tido tempo para aparecer e dizer que vinha da casa de banho. Não é um relato de praxe mas ninguém esqueceu a história.

Para terminar este já longo e entorpecido relato não me dispenso de mencionar o dia de saída oficial do Curso, da Escola no Alfeite. Em formatura solene e de farda número 1, à voz do chefe de curso, fez-se um enorme manguito, virados para a galeria principal da Escola, na qual se encontrava o oficial que nos tinha acompanhado nas diferentes viagens e que, do alto da varanda, correspondeu com um enorme manguito de despedida , cena que ficou para a história documentada com uma fotografia a que não tenho acesso no local onde me encontro. Mas voltarei a ela.

A CENA DOS MANGUITOS

Desculpem, isto é do verão!

Um pensamento sobre “A PRÁTICA DAS PRAXES

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