OS NOVOS TORQUEMADAS

Muitos de nós estudaram e ainda se lembram da Inquisição medieval, chamada de Santo Ofício da Inquisição, instituição criada dentro do sistema jurídico da Igreja Católica Romana para combater a heresia, a blasfémia e os comportamentos desviantes. Foi fundada em 1184 por decreto do Papa Lúcio III. Não vamos fazer a história da Inquisição que é longa e arrepiante, considerando o número de vítimas que prendeu, “julgou” e torturou até à morte.

O primeiro Inquisidor Geral foi Tomás de Torquemada que ficou célebre pelos rigores do seu desempenho e pelo terror que conseguiu criar na sociedade da época. Para felicidade de muitos morreu em 1498, deixando, no entanto, quem seguisse as sua pegadas sinistras.

A Inquisição entrou em Portugal em 1536, depois de um primeiro pedido de D. Manuel e por ratificação de D. João III junto do Papa. Só acabou em 1861.

Muitas figuras célebres desse tempo, em Portugal, sofreram as agruras da Inquisição e as perseguições a que eram constantemente sujeitos. Foi o caso do nosso poeta Bocage, nascido a 15/9/1765 (faria ontem anos) e falecido em 1805. Não foi a Inquisição que o matou mas, sem dúvida, ter-lhe-á deixado algumas marcas indeléveis devido às suas frequentes brejeirices que ainda hoje são lidas com prazer e sentido de humor.

Mas peguemos nos tempos de hoje e vejamos as semelhanças de comportamentos. Há dias uma estátua de Camilo Castelo Branco, localizada no Porto, foi mandada retirar pelo seu autarca principal tendo em consideração um documento cujo autor se desconhece mas que conseguiu reunir cerca de 6000 assinaturas para que a “pavorosa” estátua fosse retirada e guardada em armazém.

Trata-se de um já idoso Camilo abraçado a uma senhora nua (diz-se que seria Ana Plácido com quem viveu bastantes anos) e, como tal, considerada uma peça pornográfica. Esqueceram-se, segundo o autor (que ofereceu a peça à cidade no tempo do Presidente Rui Rio, há 12 anos) que a peça pretende evocar a obra “Amores de Perdição” e todos os estados mentais que levaram Camilo ao suicídio. Parece que o “novo Torquemada” portuense não gostava da estátua e os amigos tê-lo-ão ajudado com o abaixo assinado. O pior foi o outro abaixo assinado que foi contra a retirada e lembrou que a sua colocação foi decidida em Assembleia Municipal. Aí, o autarca fez marcha atrás e, até nova ordem, a estátua mantém-se no local.

Este facto lembra-nos outros casos por aí espalhados e que poderão (espera-se que não) as mesmas apreciações de novos Torquemadas.

Nem o “manto diáfano da fantasia” nos livrará, se calhar, desta nova sanha de “bons costumes” que parece estar a fazer escola.

Esta, no alto do Parque Eduardo VII, em Lisboa, já mereceu muitas críticas contundentes mas ninguém se atreveu a mexer num monumento erigido em honra ao 25 de Abril. Mas cuidado com os Torquemadas…

Há uns anos, em muitos países antigos colonialistas, incluindo o nosso, despertou-se uma onda de “pudor” histórico e, em diversos países as estátuas dos descobridores foram retiradas ou maltratadas até que o bom senso viesse, de novo, à superfície. Mas, entretanto, em Bristol, arrancaram a estátua de Edward Colston e atiraram-na à água do rio Avon. A estátua do fundador do escutismo, Robert Baden-Powell, em Poole, no sul de Inglaterra, também foi removida. Entre nós, como a cultura histórica não abunda, grafitaram a estátua do Padre António Vieira, inaugurada em 2007, sem saberem o que ele terá feito na vida, claro.

Se percorrermos o nosso país com alguma atenção encontraremos, decerto, muitas estátuas ou bustos de que gostamos e outras que detestamos. São os gostos e, muitas vezes, as audácias dos autores. Mas é melhor convivermos com essa diversidade do que tolerar os regressos dos Torquemadas que, se não me engano, começam a dar muitos sinais de vida.

2 pensamentos sobre “OS NOVOS TORQUEMADAS

  1. Puritanos e pseudo puritanos existirão sempre assim como pessoas se de espírito liberal. O mais difícil é o bom gosto…
    Quem na realidade fez uma triste figura foi o Presidente d CMPorto que primeiro alinhou por uma petição e depois alinhou por outra… Catavento

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  2. Verdadeiramente arrepiante, o que se está a passar quanto ao surto de uma nova moral pública. Uma moral vesga, que pretende fazer apagar imoralidades sempre tão bem escondidas da sociedade. Quantas vezes parei em frente da estátua de Eça de Queiroz, ao cimo da Rua do Alecrim, em Lisboa, apreciando a arte e a beleza de uma réplica em bronze da obra arrancada à pedra bruta, pela força de escopro e martelo, num esforço de cantaria. Como a beleza da arte nos deslumbra, fazendo lembrar a verdade da raça humana, como tantas outras belezas da própria Natureza nos surpreendem. O som cantante da pedra, sob as pancadas miúdas que lentamente iam formando a figura guardada no cérebro do escultor, como o meu avô materno, tios e primos, faziam na sua já histórica oficina em Coimbra. O sublime da obra, aparecia mostrando a verdade, numa estética Kantiana, que só o espírito da arte poderia compreender. Que caminhos seriam tomados, se as Colinas de Roma ou da Grécia Antiga tivessem sido apagadas da história da arte…! Que pensarão estes senhores da escuridão, sobre Adónis e Venus da mitologia grega ? Que pensamentos doentios andam a vaguear pelas nossas cidades nos últimos tempos, querendo apagar a arte do belo e a poesia que nos envolve desde a nossa criação…?

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