Depois de escrever um dos meus últimos textos neste blogue (Terrorismos e Citações) tenho-me lembrado de uma viagem de negócios que fiz em 1968 (não recordo o mês) até Bagdad, capital do Iraque. Através do, à data, Cônsul de Portugal no Iraque, conseguimos estabelecer as relações necessárias para vendermos (a empresa na qual eu trabalhava) equipamentos de condicionamento de ar e afins. Aproveitou-se essa apreciável deslocação para concretizar, na passagem, outros contactos já antecipadamente organizados na Grécia e no Líbano.
Conseguimos fazer negócios interessantes nesses três países mas, como sempre acontece, aproveitei as ocasiões para fazer um pouco de turismo de reconhecimento.
Deixo aqui três apontamentos das partes lúdicas dessa viagem. A primeira relaciona-se com a Grécia onde nunca tinha ido. Chegado a Atenas apercebi-me que não tinha feito o “estudo da viagem” como deveria ter feito e que me tinham ensinado em anteriores fases profissionais. Ao desembarcar em Atenas apanhei, claro, um taxi para o hotel que tinha reservado. Aí chega o primeiro problema: o taxista só falava grego e só com a exibição do papel de reserva com o nome do hotel consegui que me levasse até lá. Por sinal, bem no centro da cidade. A partir daí senti-me “plantado” noutro planeta. As indicações que levava para falar com a empresa com quem tinha trocado correspondência em inglês, em especial a morada, não tinham nada a ver com os nomes que eu via nas ruas. Naquela altura (1968) as ruas só tinham os nomes escritos em grego. Voltei ao hotel onde, com alguma dificuldade, consegui arranjar um taxista a quem foram dadas instruções, em grego, sobre os locais onde me queria deslocar. Feitos os contactos empresariais lá visitei o que se costuma visitar em Atenas, terra a quem, gente maldosa, chama um “simpático amontoado de pedras”. Vinguei-me, anos passados, com visitas bem organizadas, quando também as ruas já tinham os nomes em grego e em inglês.
Outro ponto de viagem inesquecível foi Beirute, capital do Líbano, país a quem chamavam “a Suíça do Médio Oriente “. O empresário de Beirute, recebeu-me com grande fidalguia e, concluídos os negócios, ofereceu-me um jantar no Casino de Beirute. O casino ficava a cerca de 20/30 quilómetros da cidade (mais ou menos como o nosso casino do Estoril está de Lisboa). Além do jantar, em primeira fila, assistimos a um espetáculo em palco que nunca mais esquecerei. Exibições extraordinárias que culminavam com elefantes, conduzidos por cornacas, que circularam no palco, de nós só separados por uma vala de água que, entretanto se tinha aberto. De regresso à cidade disse-me o meu interlocutor e já amigo que, no mês seguinte, iria viver para Paris. Perguntei-lhe porquê. Respondeu muito rápida e firmemente: “Porque tudo isto aqui vai acabar”. Não percebi na altura mas comecei a perceber passado algum tempo e percebo hoje bem, como toda a gente. Falei ainda uma vez com esse meu conhecido, telefonicamente, para Paris e fiquei a saber que estava muito bem. Passados todos estes anos nenhum de nós sabe se o outro está vivo.
Resta-me contar a experiência de Bagdad. Chegado ao aeroporto, ido de Beirute, confrontei-me na fronteira com aparato de militares armados interrogando e pedindo o passaporte e o documento de isenção militar. Meteram-me num compartimento isolado (à filme) e mandaram-me esperar. Esperei até aparecer um superior militar que me fez as perguntas do costume. Finalmente apareceu o nosso Cônsul local que se tinha atrasado um pouco e me salvou da confrangedora situação. Os aspetos comerciais ficaram resolvidos nesse dia à tarde, com os nossos preços de venda sempre muito bem partilhados entre os parceiros compradores locais. Eles definiam muito bem as parcelas de quem nós receberíamos, futuramente, os devidos pagamentos. E recebemos.
No dia seguinte o Cônsul acompanhou-me a um jantar em casa dos donos da empresa com quem havia negociado. Avisou-me, no entanto, para fazer só aquilo que me indicasse fazer. E assim foi. Fomos magnificamente recebidos pelos anfitriões que nos apontaram uns coxins, dispostos em círculo, para nos sentarmos. Uma série de senhoras (as mulheres deles) trouxeram-nos uma multidão de iguarias que fomos provando de forma lenta e saborosa. As senhoras retiraram-se para um canto afastado da grande sala, também sentadas nos coxins, mas, claro, afastadas dos maridos e dos convidados. O Cônsul olhou-me com o ar de me dizer: “Eu avisei…” Tudo correu muito bem mas serve para entendermos alguns dos hábitos que, atualmente, nos podem parecer estranhos.
Viagem de regresso tranquila, com paragem em Frankfurt.
E é por estas zonas que os foguetões esvoaçam agora de um para o outro lado deitando por terra os sempre inimigos por crenças religiosas. Realmente nada disto começou hoje.
Desculpem estas minhas recordações.
Uma história que nos lembra como o mundo se assemelha a um caleidoscópio. Aquele pequeno brinquedo, que ao rodar o tubo, nos ia mostrando novas imagens, ainda que sem sentido, nos ia maravilhando pela sua variedade de formas. Não obstante a diversidade de beleza que se espalha por todas as latitudes, este mundo em que vivemos, tem vindo a alicerçar-se noutros tipos de imagens bem mais difíceis de compreender e aceitar. Talvez mais com bunkers do que com belos paraísos para nos maravilharmos..!
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