COMO DIZIA O CEZARINY

Nos tempos que passam, por vezes lembramo-nos de episódios passados que retratam caprichos das suas épocas, a que os autores dedicam o seu talento com artigos ou poemas que ficam para a quase eternidade. Lembrei-me de um belo poema de autoria de Nicolau Santos e que foi declamado pelo autor, com grande êxito, numa cerimónia pública de uma prestigiada Instituição. E, dados os tempos que atravessamos, não hesitei em trazê-lo de novo à luz do dia para ser relembrado por quem já o conhece ou para ser conhecido por quem nunca o leu. Aqui fica.

COMO DIZIA CEZARINY

Falta-nos por aqui uma grande Razão

Como dizia o Cezariny

Uma verdade para qualquer estação

Falta-nos um motivo, um anseio

Um desejo fortíssimo, um desígnio, uma visão.

Falta-nos um punhal brilhantíssimo

Para liquidar esta vida de conformismo

De rotina sem ambição.

E falta-nos uma espingarda

Para apontar ao manto da noite

E rasgar estrelas na escuridão.

Falta-nos um visionário

Que traga o futuro nos olhos

E a cara pintada de carvão.

E falta-nos um gato persa

Que seja tão sábio como os sábios

Quando sustém a respiração

Falta-nos um garfo de aço holandês

Com embutidos de mármore

Que diga poemas em alemão

Falta-nos um Kant, um Locke, um Aristóteles,

Um Sócrates, um Newton, um Platão.

Falta-nos acabar com os burocratas

Fundar uma não-igreja

E pôr no altar a imaginação.

E falta-nos um pianista que toque

Bach, Mozart, Chopin

De forma perfeita com uma só mão.

Falta-nos brilho, noite, lantejoulas

E uma inesperada mulher-palhaço

Que nos faça rir até à exaustão.

E falta-nos um jardim humanológico

Repleto de corruptos e assassinos

Comidos dia a dia por um leão.

Falta-nos um relógio que não nos dê ordens

Um barco que seja um jardim

E um zepelim que só ande no chão.

Falta-nos dedos para tocar o invisível

Todas as palavras ainda por dizer

E uma imensa coragem no coração.

E falta-nos ter o peito muito aberto

A tudo o que seja talento, novidade, diferença, inovação.

Falta-nos fazer o exercício diário

De andar de bicicleta num arame esticado

Entre dois prédios em construção.

Falta-nos sobreviver sem telemóveis,

Automóveis, sacos de plástico, IPods,

Twitter e, sobretudo, televisão.

Falta-nos fazer filhos aos magotes

Mas não para garantir a Segurança Social

Nem os educadores do Ministério da Educação.

Falta-nos esquecer todas as fronteiras

Instalar alarmes, os barcos da marinha

Sossegar o nosso medo da imigração.

Falta-nos filosofar socraticamente

Sobre negros, amarelos, mulatos

E os benefícios da miscigenação.

Falta-nos uma bússola, um sextante,

Um astrolábio, a rosa dos ventos

Para nos ajudar na navegação.

Falta-nos uma mesa de pé de galo

Que se levante no ar e voe

Quando o debate se transforma em discussão.

Falta-nos discursos de jazz no Parlamento

De Coltrane, Miles Davis, Thelonius Monk,

Em vez de governo e oposição.

E falta-nos fazer algo verdadeiramente original:

Eleger um sonho para nos governar

Em vez de uma desilusão.

Até lá, como diria o Cezariny,

Falta por aqui uma grande Razão.

Fica aqui, uma vez mais, os meus agradecimentos ao Nicolau Santos.

Um pensamento sobre “COMO DIZIA O CEZARINY

  1. Foi bom trazer à luz um pouco de Mário Cezariny que tão pouco conheço. Do surrealismo em que se vive, estamos mesmo a precisar de nos lembrarmos de tudo o que nos falta. O sonho e a ambição. O sorriso em rosto de quem sofre. Governantes que leiam Aristóteles e um pouco de Platão…!

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