O meu Amigo Nicolau Santos, agora com pouco tempo para as coisas mais divertidas, ( a RTP deve ser um ananás difícil de descascar) deixou, no entanto, atrás de si, um longo rasto de bom humor, envolvido em embalagens de inteligência e cultura que, por vezes, me dá muito gosto revisitar. Aqui vos deixo um poema que também vos recordará muitas coisas das vossas vidas.
Sinceramente, não sei como ainda ando por aqui.
Já podia ter batido a caçoleta em milhentas ocasiões.
Daquela vez em que entrei por um vidro adentro
E levei dez pontos no joelho.
Da outra em que caí escada abaixo
E a esquina do degrau se espetou junto ao meu olho direito.
Da outra ainda em que engoli um alfinete-de-ama aberto
Com seis meses de idade
Ou quando me engasguei com uma pastilha Vick
E fiquei sem respirar.
Também da outra em que por uma décima
Não batemos de frente no carro que vinha em sentido contrário.
Eu que sobrevivi a todos os professores,
À Organização Política e Administrativa da Nação
Ao exame de aptidão.
Às pipetas, às experiências químicas,
Ao movimento uniformemente acelerado,
Às rãs dissecadas, às aulas de canto coral
E às outras de religião e moral
Eu que sobrevivi ao fascismo, ao colonialismo,
À revolução, ao social fascismo,
À mosca tsé-tsé, ao Mao Tsé-Tung
Ao Enver Hodja, ao Estaline,
Ao Agostinho Neto e ao Samora Machel
Às matacanhas, aos carros sem cinto de segurança.
A jogar à bola na rua, às cabeças partidas
Aos joelhos esfolados, aos braços quebrados
Às febres intestinais e outras doenças iguais.
Eu que sobrevivi ao tétano, às febres de 40 graus,
À poliomielite, à tuberculose,
À malária, à febre-amarela,
À icterícia, ao sarampo, à varicela
Eu que sobrevivi à gripe das aves,
À peste suína
À doença das vacas loucas,
À gripe A, à sida.
Às mulheres que não amei e devia ter amado
E às mulheres que me amaram e que não amei
Pois eu que também sobrevivi às balas perdidas e às propositadas,
As da vida e as de verdade.
Eu que estou aqui
Com uma tensão de doze oito
Uma batida cardíaca de atleta
Uma data de mazelas que se hão-de descobrir
Mas muito bem para a idade, segundo a médica
Eu estou aqui
Pronto a saltar da prancha dos dez metros
Dando vários mortais encarpados pelo meio
E feliz muito feliz
Por estar vivo
Porque a vida tem muita graça
E merece ser vivida
À la James Dean
Com a fúria da paixão
(E ainda melhor se for um Porsche
A servir-nós de caixão).
Um belíssimo exemplo de juventude e de boa disposição. De certeza que também apanhou Sarampo e desejou voar…! Muitas destas doses vitamínicas que muitos de nós já tomámos, só nos trouxe a tal resiliência para o que ainda vamos suportar…!
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