Tu que viste, em 1942, a inauguração do aeroporto de Lisboa prepara-te para lhe fazeres uma visita (no caso de já não viajares) porque julgo que não vais ver outro, por estas bandas, na tua vida. Tu que assististe ou trabalhaste com um armário a que chamavam de computador, que ocupava uma sala exclusiva, e vomitava profusões de cartões perfurados, talvez possas visitar um museu onde esse monstro se encontre e, com o equipamento digital que sempre te acompanha, poderás fotografá-lo e relembrar as horas que passaste à espera de uma resposta para as tuas dúvidas. Tempo bem passado porque não te obrigava a ler as patetices e as mentiras que hoje, sem lhe pedires, o teu computador te debita. Tu que passaste anos a atravessar o rio Tejo, entre Cacilhas e o Cais do Sodré, aproveita um tempo livre e repete a viagem nos escassos horários que esses “cacilheiros” ainda te proporcionam porque, à vezes, a Ponte 25 de Abril (já foi Ponte Salazar em tempos de más memórias) está entupida de trânsito desafiando a tua paciência e, em muitas ocasiões, o decoro dos teus inopinados insultos. Tu que já leste, se calhar há muitos anos, os livros de Erle Stanley Gardner, de Agatha Christie, de Tolstoy, de Eric Marie Remarque, de John Steinbeck, de Christina Garnier e de tantos outros que estão nos fundos das tuas prateleiras, volta a lê-los e talvez descubras textos que te encheram a vida e compara-os com os os que lês (espero que leias) de autores atuais. Talvez encontres inevitáveis diferenças mas, além de recordares textos maravilhosos de gente antiga, irás também encontrar textos maravilhosos de gente moderna. Isto, claro, se já não foste conquistado pela leitura digital no teu computador. Começas a usar óculos mais cedo (dizem os médicos) mas não tem importância, leste muito mais depressa o que a “nuvem” te proporciona, que é quase tudo! Tu, que talvez sejas do tempo do SMO (Serviço Militar Obrigatório), arregalarás os olhos ao te aperceberes do que se tratava. Há países que ainda o usam por períodos curtos mas não é o nosso caso. Tu que em miúdo andaste de trotineta (coisa de crianças, claro) corres à desfilada pelas ruas a fugir da multidão de adultos que te ameaçam atropelar com modernas trotinetas. Tu que em jovem, quando ias à praia e eras obrigado a usar um fato de banho que te cobrisse o peito (podias ser multado pelo cabo-de-mar), podes hoje desfrutar de rapazes e raparigas de peitos descobertos. Além de não ser proibido é um regalo para os olhos.
Tu que, ao longo da tua vida, assististe, de perto ou de longe, a tantas guerras e rebeliões assassinas, já te convenceste que nada disso mudou e que as guerras ou rebeliões atuais são praticamente diárias pelo mundo fora e cada vez mais mortais para milhares de inocentes. Essa, meu caro, é a carnificina dos tempos modernos de que nem os de bom senso que vão tendo palavra nos mais importantes areópagos, te conseguirão libertar. Praticar a paz , viver em segurança e em liberdade sempre foi e continuará a ser um trabalho sem fim. Desde que andávamos de trotineta até aos dias de hoje e, é inevitável, como sempre será.
Tentemos praticar o que sempre nos ensinaram: a tolerância, o bem fazer, a justiça, o respeito, a solidariedade, e agora, cada vez mais, o respeito por tudo o que tem a ver com o ambiente. Ambiente que não é só nosso, é de todos.
Bom Ano de 2024!
Soberbo …! Uma boa prenda Natal a recuperar memorias, que não estando esquecidas para alguns, poderão estar apagadas para muitos mais…!
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